


Rosa Maria Macedo (organizadora)

PSICOLOGIA E INSTITUIO

NOVAS        FORMAS DE ATENDIMENTO






PSICOLOGIA E INSTITUIO - Novas formas de atendimento
 Rosa Maria S. de Macedo (org.)

Produo editorial: Antonio de Paulo Silva

Reviso: Jos Garcia Filho

Capa: Antonio Carlos Espilotro



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CORTEZ EDITORA Rua Bartira, 387 - Tel. (011) 864-0111 05009 So Paulo SP

Impresso no Brasil 1984


APRESENTAO

Tendo em vista os problemas e as dificuldades em satisfazer a demanda de 
atendimento psicolgico em instituies, de maneira adequada, impe-se a anlise e 
discusso dos modelos utilizados "tradicionalmente" quanto  sua eficincia.

Com essa preocupao desenvolveu-se uma linha de estudo sobre a atuao do 
psiclogo, modelos utilizados e propostas alternativas, de acordo com a qual inmeros 
trabalhos vm sendo realizados, alguns j terminados e orientando modificaes 
significativas em servios de Psicologia.
Atravs desses trabalhos pode-se discutir o problema do conceito de Psicologia 
Clnica, sua relao com a sociedade em geral e com as classes sociais assim como a insti-
tucionalizao da funo do psiclogo clnico. Pode-se tambm discutir a discrepncia 
existente entre teoria e prxis psicolgicas, necessidade de busca de uma relao funcional 
entre elas, a fim de se promover uma definio da identidade do psiclogo clnico que 
implique uma real transformao da conscincia profissional, a qual no pode ignorar a 
conjuntura atual em que vive grande parte de nossa populao.
Resultados de avaliaes de servios psicolgicos permitiram observar algumas falhas 
e formular algumas diretrizes que podem ser tomadas como pressupostos para as 
modificaes: redistribuio do poder existente na relao psiclogo-cliente, consideraes 
do conhecimento como contingente, dependendo de uma forma de compreenso e mtodo 
de estudo; considerao das tcnicas como estratgias, utilizveis ou no, de acordo com 
as circunstncias; reestru-

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turao contnua e sistemtica da forma de trabalho n instituies.
Neste livro, alm da discusso dos aspectos acima citados, sero descritos alguns 
modelos de atuao decorrentes das diretrizes adotadas: Grupos de Espera, 
Psicodiagnstico em Grupo e Grupos Estruturados de Vivncia par Pais.
Os Grupos de Espera so grupos de curta durao formados por pais aguardando o 
psicodiagnstico de seus filhos, tendo como objetivo trabalhar as expectativas dos clientes, 
o vnculo com a instituio e sua participao ativa diante do processo de atendimento dos 
filhos.
O Psicodiagnstico em Grupo possibilita maior compreenso, no apenas da 
problemtica dos filhos, mas tambm da importncia da estrutura e dinmica da famlia no 
estabelecimento e resoluo do problema.

Os Grupos Estruturados de Vivncia para Pais constituem-se numa tcnica de 
sensibilizao ao processo teraputico, endereada  pais de crianas em terapia.
Essas propostas de atuao no pretendem configurar modelos acabados a serem 
meramente transpostos para outras situaes. Pretendem mostrar que  possvel modificar 
a atuao psicolgica, em base de um conhecimento contextualizado da instituio onde se 
desenvolve, tornando-a mais efetiva e mais adequada  demanda da populao.
A busca continuada de novos modelos, assim como a divulgao e o intercmbio entre 
os trabalhos dos diferentes grupos sensibilizados para as questes aqui levantadas, seria 
enriquecedora, no s para os profissionais da rea, mas tambm para a populao que 
usufrui seus servios, facilitando a implantao das mudanas que se fazem necessrias.

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SUMRIO 
APRESENTAO. 7 
PSICOLOGIA, INSTITUIO E COMUNIDADE  Problemas de atuao do psiclogo 
clnico  Rosa Maria S. de Macedo. 9 
1. Como entendemos a Psicologia Clnica. 9 
2. Psicologia Clnica, sociedade e classes sociais. 10 
3. Psicologia e sade mental  a Psicologia Comunitria.16 
3.1. Para quem seria o atendimento. 18
3.2. Como e o que pode ser feito? 18
3.3. Para qu? 18
3.4. Onde e em que locais se daria a atuao dos servios psicolgicos. 19
4. O que tem sido feito. 22

CARACTERSTICAS DA CLIENTELA DE CLNICAS 
 Escola de Psicologia em So Paulo  Manha Ancona Lopez. 24 
1. Procedimentos utilizados. 25 
2. Dados obtidos. 27 
3. Discusso dos dados. 35 
3.1. As crianas e os adolescentes. 35
3.2. As mulheres. 39 
3.3. Os idosos. 42 
3.4. Os homens. 43 
4. Concluso. 44 
ATENDIMENTO PSICOLGICO EM CLNICAS-ESCOLA  Manha Ancona Lopez. 47 
1. Dados levantados. 47 
2. Apresentao dos dados. 49 
3. Discusso. 52 
3.1. Problemas tcnicos. 54 
3.2. Dificuldades tericas. 56 
3.3. A identidade profissional e o campo de competncia do psiclogo. 57 
4. Conseqncias do levantamento realizado. 59 
GRUPOS DE ESPERA EM INSTITUIO  Slvia Ancona Lopez Larrabure. 63 
1. Formao dos GE. 66 
2. Objetivos dos GE. 66 
2.1. Do ponto de vista da instituio. 66 
2.2. Do ponto de vista da clientela, trabalhar com os pais da criana em espera. 67 
3. Nmero de participantes. 68 
4. Funcionamento dos GE. 68 
4.1. Sesso inicial e contrato. 68 
4.2. Sesses subseqentes. 70 
4.3. Conduo das sesses. 71 
5. Avaliao dos GE. 72 
6. Desenvolvimento dos GE. 75 
6.1. Quanto ao cliente. 75 
6.2. Quanto ao psiclogo. 78 
7. Natureza dos GE. 80 
7.1. GE e psicodiagnstico. 80 
7.2. GE e grupos teraputicos. 81 
7.3. GE e terapia breve (TB). 81 
7.4. GE e grupos de orientao (GO). 82 
7.5. Aspecto social dos GE. 83 
7.6. Concluso quanto a natureza dos GE. 83 
8. Concluso. 84 
UMA MODALIDADE DE ATENDIMENTO  Mary Dolores Ewerton Santiago e Sma 
Regina Jubelini. 86 
1. Caractersticas do modelo adotado. 88 
2. Processo de atendimento. 92 
3. Anlise da experincia. 96 
GRUPO ESTRUTURADO DE VIVNCIA PARA PAIS  
Oara Varca Moreira da Silva. 99 
1. Objetivos da tcnica. 103 
2. Descrio da tcnica. 103 
2.1. Formao dos grupos. 103 
2.2. Equipe tcnica. 104 
2.3. Freqncia e durao do atendimento. 104 
2.4. Espao fsico e participao dos clientes nas dramatizaes. 105 
2.5. Instrues para a aplicao da tcnica. 105 
3. Relato de um grupo estruturado de vivncia para pais. 111 
4. Discusso dos dados obtidos no grupo estruturado de vivncia. 122 




PSICOLOGIA, INSTITUIO E COMUNIDADE
        Problemas de atuao do Psiclogo Clnico

Rosa Maria S. de Macedo 

A proposta deste trabalho  comentar peculiaridades do atendimento em Psicologia Clnica, 
sua natureza, suas relaes com o social, principalmente no que diz respeito  demanda de 
atendimento psicolgico para ento passarmos s necessidades de mudana e aos 
problemas que esta implica, tanto no campo da prpria Psicologia Clnica, suas teorias e 
mtodos, seus profissionais, quanto no mbito social, sobretudo em termos de uma poltica 
de Sade Mental.

1. COMO ENTENDEMOS A PSICOLOGIA CLNICA

Entendemos que a Psicologia Clnica se distingue das demais reas psicolgicas muito 
mais por uma maneira de pensar e atuar, do que pelos problemas que trata. O com-
portamento, a personalidade, as normas de ao e seus desvios, as relaes interpessoais, 
os processos grupais, evolutivos e de aprendizagem, so objeto de estudo no s de mui-
tos campos da psicologia como tambm das cincias humanas em geral.

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Ao clnico diz respeito, sobretudo, o bem-estar das pessoas em sua singularidade e 
complexidade.
Do ponto de vista clnico, o psicolgico  resultante da interao do indivduo com seu 
ambiente e, portanto, da influncia de outros que so relevantes para o desenvolvimento de 
uma personalidade: os pequenos grupos nos quais as pessoas vivem, bem como as 
instituies sociais cujo impacto sobre elas so fundamentais para a compreenso de seu 
modo de ser e agir.
O essencial da atitude clnica, diz Wyatt (1968),  sua preocupao com o 
comportamento e as necessidades atuais, interesses e apreenses das pessoas na vida 
diria. A nfase  na importncia da experincia em seus aspectos afetivos e cognitivos, 
nfase essa, que inclui a pluralidade de experincias, as mudanas no auto-conhecimento, 
a qualidade do pensamento e, sobretudo, os significados que, de acordo com a capacidade 
de cada um, so dados a essas mesmas experincias, considerado o seu ambiente de 
vida.
O termo clnico sugere ainda o estudo do comportamento atravs de observao direta 
nos mais diversos contextos envolvendo maior ou menor grau de participao e interao 
do psiclogo. Implica, tambm, este termo, uma distino clara, porm no-separao 
absoluta, entre observar, compreender e intervir, tendo em vista as contnuas - 
transformaes imprescindveis ao bem-estar dos sujeitos         (Wyatt, 1968).

2. PSICOLOGIA CLNICA, SOCIEDADE E CLASSES SOCIAIS

Em sentido lato, a natureza d Psicologia Clnica  relacionada  compreenso e 
interveno nos problemas do homem visando o bem-estar individual e social, e, nesse 
sentido, a atividade do psiclogo clnico est popularmente vinculada  psicoterapia, que, 
nos ltimos anos, tem apresentado um constante aumento de demanda. Esse fenmeno 
tem atrado a ateno dos profissionais da rea e, na tentativa de compreend-lo e explic-
lo, vrias pesquisas tm sido realizadas, cumprindo destacar, pela sua profunda anlise, o 
trabalho apresentado sob o nome sugestivo:

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"Quem est pirando no Rio de Janeiro?" (Lima e Silva, Lima e Silva, Przemyzlaw e 
Monteiro, 1983), do qual se depreende que o fato est ligado a um fenmeno cultural de 
espraiamento do psicolgico sobre o social, isto , um aumento da "cultura psi".

No entanto, quando um problema humano  da competncia do psiclogo clnico?
Quem decide quando um problema deve ser tratado psicologicamente? Inadequao, 
desamparo, dificuldades e sofrimento do ponto de vista emocional so experincias comuns 
a todas as pessoas, em todos os tempos, porm, o que determina que estes aspectos no 
seriam material para um padre, um mdico, algum amigo ntimo, pessoas de confiana ou 
qualquer outro agente social?

Estudos tm sido realizados no sentido de responder a essa questo. As hipteses so 
inmeras, porm, a resposta no  simples. No h uma relao unicausal, mas uma 
multiplicidade complexa de fatores que passa pelos valores sociais, pela organizao 
poltica e econmica, subjacente aos recursos disponveis, s leis que regularizam as rela-
es sociais, aos costumes e, conseqentemente, aos valores pessoais, como se 
depreende do trabalho sobre a demanda acima citado.

Portanto, numa sociedade de classes como a nossa, a expanso da procura tanto pela 
formao como pelo atendimento psicolgico, sobretudo teraputico, deve ser analisada 
em funo do status social e sobretudo cultural de seus membros.
Pesquisas de opinio sobre o que a populao sabe e em que acredita a respeito de 
sade mental, realizadas nos Estados Unidos, mostraram que a grande maioria reconhece 
algum como necessitando de ajuda psicolgica quando esse algum apresenta um 
comportamento "irracional", isto , sem uma explicao razovel, visto como perigoso para 
os demais (Korchin, 1976).

Tais resultados so confirmados por uma srie de outras pesquisas que, em sntese, 
afirmam:

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" a prontido para identificar casos de pessoas problemticas necessitando de ajuda 
psicolgica aumenta com o nvel de educao e a classe social" (Korchin, 1976, p. 536>.

Tais resultados deixam entrever que a noo de uma escala de funcionamento psicolgico 
em vrios graus de inadaptao, sujeita a vrios tipos de interveno, prpria dos 
profissionais da rea, pertence ao universo cultural de grupos social e educacionalmente 
privilegiados.
A explorao sensacionalista dos meios de comunicao de massa, da violncia 
urbana, crimes sexuais, assassinatos, enfaticamente associados a desequilbrios psicolgi-
cos,  loucura contribuem para fortalecer a opinio das classes menos cultas, que, 
conforme vimos, classificam como necessitando de ajuda psicolgica principalmente aque-
les que so considerados perigosos. Acrescente-se a isso a desinformao sobre os 
servios especializados de psicologia (que realmente so poucos), sua associao com 
hospitais, a confuso entre psiclogo e psiquiatra, o peso das dificuldades dirias para 
sobrevivncia, e poderemos compreender a dificuldade de reconhecer a necessidade de 
ajuda psicolgica desse segmento da populao.
Poderamos resumir essa situao, segundo a forma corrente: os "ricos" so 
neurticos, ou pirados (para dizer de maneira mais leve como os cariocas), os "pobres" so 
loucos. Aos primeiros tm sido endereados os mais refinados recursos tcnicos, aos 
ltimos os "hospcios" (Smith e Hobbs, 1966).
Por essa razo, a grande disseminao da prtica psicolgica privada se deu 
atendendo  demanda daquelas classes mais privilegiadas, no s econmica como 
culturalmente, tendo a maioria de suas tcnicas tambm se desenvolvido a partir dessa 
clientela, o que demonstra claramente as relaes de reciprocidade- entre uma rea do 
conhecimento com sua prxis e as caractersticas do meio em que se desenvolve. Dessa 
forma, grandes segmentos da populao foram sendo desconsiderados pela Psicologia 
Clnica, em suas formulaes tericas e seus mtodos mais sofisticados de tratamento, na 
medida que no processo dinmico das transformaes sociais constituram subculturas 
para
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as quais a "ajuda" psicolgica tem ficado mais a cargo da psiquiatria e dos tratamentos 
medicamentosos oferecidos pela Previdncia Social.
Assim, temos de um lado as classes mais altas, "intelectualizadas e narcisistas" 
(Monteiro, 1983), cuja demanda sempre maior por atendimento psicolgico, principalmente 
teraputico, reflete uma cultura em que a terapia seria uma sada vivel para a resoluo 
dos conflitos interiores causados por uma sociedade tecnolgica, desafiadora, competitiva e 
destituda de espao para trocas afetivas entre as pessoas, encerrando-as em si mesmas e 
na sua solido; de outro lado, temos as classes menos favorecidas, para as quais os 
problemas so conseqncias inevitveis das circunstncias externas para cuja resoluo 
seria destituda de significado uma interveno psicolgica.
Uma vez constatados os contrastes da demanda em funo dos contrastes sociais, 
cumpre analisar sua contrapartida na atuao do psiclogo clnico.
A histria do desenvolvimento da Psicologia no Brasil mostra como as caractersticas 
do modelo aqui introduzido, nitidamente clnico, teraputico, influiu na estruturao dos 
cursos de Psicologia, portanto, na formao do psiclogo, . e conseqentemente, fortaleceu 
a disseminao das clnicas psicolgicas e consultrios particulares, que absorvem ainda 
hoje a maioria dos psiclogos que exercem a profisso.
Os resultados da pesquisa sobre "Psicologia e Profisso em So Paulo" (Mello, 1975) 
confirmam que o modelo de atuao predominante entre ns  o clnico, exercido ma-
ciamente em consultrios particulares (57% da amostra), com ampla variedade de 
atividades que :incluem o diagnstico, a terapia, o aconselhamento, at seleo de pessoal 
e exame psicotcnico.

No entanto, a autora levanta um problema srio no que diz respeito ao tipo de atuao 
desses psiclogos, em vista de uma identidade profissional, qual seja, a ambigidade do 
adjetivo clnico que se refere, sobretudo, ao local de atuao mais do que  funo 
exercida.

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Em pesquisa recente, Carvalho (1983), refora esse dado, ao constatar que o critrio 
usado pelos psiclogos pesquisados, atualmente,  a "natureza da agncia" mais do que a 
"natureza das atividades exercidas", da os psiclogos considerarem-se clnicos, quaisquer 
que sejam as atividades que exercem, desde que numa clnica ou consultrio particular.
Por outro lado, afirma a autora, quando atuando em diversas instituies que 
necessitam de servios para os quais os modelos tradicionais conhecidos de atuao so 
dificilmente aplicveis, os psiclogos apresentam at dvidas em se classificarem como tais 
ou reconhecerem seu trabalho como psicolgico visto que, em grande parte, ele no se 
enquadra em qualquer das atividades aprendidas nos cursos de formao acadmica.
Se, do ponto de vista do profissional, a identificao com o modelo de atuao clnica 
tradicional aprendido lhe traz segurana, no tem trazido, no entanto, muito sucesso a 
aplicao desse modelo em instituies que atendam a populao menos privilegiada do 
ponto de vista scio-educacional e econmico, pois suas tcnicas tm-se mostrado ine-
ficientes fora do contexto dos consultrios particulares.
Alm disso, o conhecimento adequado das reais necessidades dessa populao  
inexistente porque no-vivenciadas nem pesquisadas pelo psiclogo clnico, cujo universo 
existencial (experincias, cultura, linguagem e necessidades) , via de regra, 
fundamentalmente diverso. Assim, esse modelo tem levado a uma relao patronal, 
psiclogo-cliente, calcada no modelo de relao mdico-paciente, que foge  essncia da 
atitude clnica como definida no incio deste trabalho.
Em vista dessa situao, acreditamos que os problemas de identidade profissional 
atingem no apenas os psiclogos que atuam em reas novas. Eles refletem um momento 
em que a necessidade de transformao dos modelos de atuao est sendo sentida em 
vrios setores profissionais e acadmicos.
 essa fase de transio que implica uma srie de indefinies, principalmente pelo 
"choque" entre a concepo
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clssica de psiclogo clnico e a solicitao de trabalho que, a nosso ver, tem suas 
resultantes existenciais que se traduzem num problema de identidade profissional, no s 
dos psiclogos recm-formados, como dos responsveis por sua formao.
Conseqentemente, poderamos dizer que se trata de uma crise de identidade da 
prpria Psicologia Clnica, que envolve a definio da clientela e a busca de modelos alter-
nativos mais adequados ao seu atendimento, dentro d uma poltica que advoga a 
extenso dos servios psicolgicos a toda a populao" desvinculando-a do esteretipo de 
uma prtica especfica para as classes privilegiadas. Essa situao aponta para a exigncia 
de maior conscientizao do ponto de vista social e poltico, uma definio ideolgica 
norteadora dos modelos de ao, para que se possa chegar claramente ao que se entende 
por ajuda psicolgica, quais os fenmenos com que lidam, para quem, para que, como e 
onde. Para isso  necessrio que, desde sua formao, o psiclogo seja levado a refletir 
sobre tais injunes e a analisar os resultados de sua prxis nas suas implicaes terico-
ideolgicas propugnando as necessidades de mudana.
Em pases desenvolvidos, grandes mudanas tm ocorrido nas ltimas dcadas. Os 
movimentos conhecidos como anti-psiquiatria revolucionaram o conceito de doena mental 
e as formas de tratamento aos chamados "doentes".

Ao se abrirem as portas dos hospitais, procurando a integrao do "paciente" psiquitrico 
na comunidade, deu-se um passo gigantesco na direo de combater o esteretipo e o 
preconceito quanto  doena mental, tornando possvel uma mudana na compreenso dos 
problemas psicolgicos por parte da populao em geral, pela mudana do enfoque 
organicista dos critrios nosolgicos que colocava o sujeito na condio inapelvel de 
"doente".
Pode-se hoje perceber mais claramente que a' definio do que  da esfera "psi" 
(psiclogo, psiquiatra) tem sua origem no social.
Se isto vale indiretamente para a compreenso dos problemas das classes sociais mais 
favorecidas, tanto pelo seu nvel cultural como ideolgico, vale diretamente para as
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menos favorecidas na medida que reconhece o peso dos fatores sociais na causao de 
problemas psicolgicos.
Entre ns, o conhecimento desse processo pelos psiclogos bem como a insatisfao 
com os resultados de sua interveno, a discusso sobre os papis tradicionalmente de-
sempenhados, comeam a levar ao questionamento de como contribuir mais 
significativamente para atingir as reais necessidades do vasto segmento da populao que 
no tem acesso  cultura da classe mdia, muito menos aos aspectos "psi", enfim, os 
psiclogos sequer tm tido voz no processo de transformaes sociais, constituindo-se 
muito mais como atores do que como agentes de tais transformaes.
Portanto,  aos prprios psiclogos, como representantes das classes que detm o 
poder, que cabe a iniciativa de promover a discusso ampla das necessidades dos que tm 
sido alijados do processo, com vistas mais a uma atuao preventiva, educativa, do que 
teraputica.

3. PSICOLOGIA E SADE MENTAL - A PSICOLOGIA COMUNITARIA

Essas discusses tm como ponto bsico o delineamento de uma orientao para a 
comunidade que, por sua vez, envolve aspectos ideolgicos, profissionais e sociais e im-
plica uma filosofia em que os direitos humanos se estendem, de fato, a todos os indivduos, 
qualquer que seja sua condio econmica e cultural.
J Freud, em 1918, no V Congresso Internacional de Psicanlise, apontou que:
 "havia chegado o tempo de se tomar conscincia da comunidade; de se acordar para o 
fato de que os pobres tenham tanto direito de ajuda para suas mentes quanto do cirurgio 
para salvar sua vida"...

Dizia ele: - "... despertemos para a tarefa de adaptar nossas tcnicas s novas condies" 
(Galdston, 1971, in Korchin, 1976, p. 479).

Sob que circunstncias polticas e sociais estaria o "esquecimento" desse alerta?
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Segundo Hersch (1968), analisando a psicologia americana, a Psicologia Comunitria 
surgiu de uma "exploso de descontentamento" entre os clnicos.
Ao tratar de uma conceituao moderna de Psicologia Clnica, Korchin (1976), 
defendendo a necessidade de uma Psicologia Comunitria, apresenta uma 
esquematizao dos modelos de atuao psicolgica que, a nosso ver, contribui 
enormemente para o esclarecimento dos problemas de identidade dos quais falvamos.
Dessa maneira, contrape os modelos clnicos tradicionais com seus dois enfoques:

a) de custdia do "paciente"
b) teraputico, aos modelos comunitrios que implicam:
1. um plo clnico,
2. um plo de. sade pblica, distinguindo ambos de um modelo de ao social, mais 
sociolgico do que psicolgico.
A principal diferena entre os modelos clnicos tradicionais e comunitrios est na 
mudana dos quadros referenciais quanto  prpria concepo dos agentes causadores de 
distrbio, o que, em conseqncia, muda o procedimento clnico desde o diagnstico at o 
tratamento, passando pela concepo de quem  o cliente e como deve ser atingido.
        Nos modelos clnicos a nfase est no indivduo com problema:
        a) no enfoque de custdia ele  visto como um "paciente" que ser tratado de acordo com 
uma concepo mdica de doena psiquitrica;
b) no enfoque teraputico, ele  visto como uma pessoa sujeita  interveno psicolgica que 
varia em funo das diversas concepes tericas de personalidade, psicopatolgicas e 
tcnicas teraputicas.

        O que os une  a preocupao com o bem-estar do indivduo.
        Nos modelos comunitrios, a nfase  colocada na necessidade de estender o 
atendimento a todos os segmentos
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da populao, com vistas a prevenir e tratar os distrbios psicolgicos da maneira mais 
integrada possvel com o seu ambiente social.
Assim, o enfoque clnico se assemelha ao teraputico do modelo anterior, porm difere 
dele ao utilizar modelos de atendimento nitidamente relacionados ao contexto social da 
interveno, ou seja, lidando com aspectos sociais especficos presentes na vida dos 
indivduos de determinado meio.

Quando o modelo comunitrio assume a dimenso de sade pblica, a compreenso 
dos fatores sociais que esto na base dos problemas psicolgicos torna-se o centro da 
preocupao, e a nfase se desloca para a preveno e erradicao das condies que 
causam tais problemas, sobretudo na "populao sujeita  risco" (segmento da populao 
menos favorecida social e economicamente).
Baseados nessa concepo de modelos comunitrios (clnico e de sade pblica), as' 
questes que levantamos a propsito da identidade da prpria Psicologia Clnica poderiam 
ser respondidas da maneira seguinte:

3.1. Para quem seria o atendimento?


a) no modelo clnico, a pessoa que procura o servio voluntariamente ou  encaminhada a ele, 
bem como outros a ele relacionados que so relevantes (no caso de criana, por exemplo, 
a famlia ou os pais, a escola, outros parentes); tal indivduo seria concebido como 
passando por uma crise cujo foco estaria nas suas condies psicolgicas e sociais.
b) no modelo de sade pblica, a populao sob risco ou qualquer pessoa, voluntria ou 
involuntariamente quando necessrio; o indivduo  concebido como estando efetivamente 
em crise ou em perigo potencial da mesma, e o foco do problema estaria na sua situao 
social ou no sistema social.

3.2. Como e o que pode ser feito?
        a) no modelo clnico, a interveno implicaria uma abordagem focal, prpria para um 
momento de cri-
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se, que supe tcnicas grupais, de sensibilizao) aconselhamento e esclarecimento, 
terapias breves e ajuda direta em relao aos focos de problema: escola, trabalho, famlia e 
outros, atravs de orientao especfica. O importante aqui  delimitar o atendimento ao 
problema apresentado procurando descobrir com o sujeito suas foras e fraquezas, suas 
possibilidades e dificuldades, em curto espao de tempo, de maneira econmica e eficaz.

b) no modelo de sade pblica, agir no nvel de uma preveno primria, secundria ou 
terciria; o importante , principalmente, o levantamento dos problemas com vista a uma 
programao preventiva a curto, mdio e longo prazo.


3.3. Para qu?

a) o modelo clnico, visa levar o sujeito a conhecer suas potencialidades, perceber as 
relaes entre' suas atitudes e suas prprias experincias, no seu contexto de vida, e em 
ltima anlise, fortalecer suas possibilidades pessoais de enfrentar e lidar com as situaes 
de crise para evitar ou aliviar o sofrimento psicolgico que causam.

b) no modelo de sade pblica, a finalidade  a reduo do stress social com o aumento da 
informao atravs da difuso de mensagens claras e intervenes diretas na prpria 
comunidade.

3.4. Onde e em que locais se daria a atuao dos servios psicolgicos?
a) no modelo clnico, poderia ser nos centros de sade comunitrios, hospitais e quaisquer 
outras instituies comprometidas com essa postura.
b) no modelo de sade pblica, seria nas instituies da comunidade em geral: igreja, 
escola, fbrica, associaes de bairro, creches e outras.
Nos pases mais desenvolvidos, a psicologia comunitria j se apropriou do espao 
necessrio para a efetivao
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das modificaes que tm como finalidade, no mnimo, tornar os servios necessrios de 
atendimento mais eficazes e disponveis  populao total, incluindo os pobres e tambm 
os alienados das classes favorecidas que pouco se tm beneficiado das prticas correntes.
Entre ns, o movimento de transformao  apenas incipiente e envolve grupos 
isolados aqui e acol, sem qualquer articulao que permita uma troca efetiva de experin-
cias, um melhor aproveitamento dos parcos resultados obtidos e, sobretudo, a implantao 
a nvel institucional dessa nova viso a respeito das desordens do comportamento humano 
e seu alvio. Esta situao indica tanto o precrio nvel de desenvolvimento de nossa 
sociedade com relao  sade mental, 'como reflete a poltica de Educao e Sade do 
pas com todas as implicaes na formao dos profissionais e no acesso aos benefcios.
Vale lembrar aqui, novamente, os resultados da pesquisa com psiclogos recm-
formados (Carvalho, 1983) quanto a novos campos de atuao do psiclogo.
Os dados mostram que apenas 6% dos entrevistados exerciam atividades fora dos 
modelos tradicionais.
Dos 53 entrevistados, 34 trabalhavam em instituies, porm, s 19 eram remunerados 
para isso, enquanto apenas 7 trabalhavam na comunidade sendo apenas 1 remunerado.
Se h, pois, alguma abertura das instituies existentes, elas no sabem o que exigir 
do psiclogo, na medida que no tm objetivos claros e definidos quanto ao atendimento 
voltado para a sade mental, seja em que modelo for. Da a desorientao do profissional 
quanto ao tipo de atuao, constatada por Carvalho (1983). Se de um lado as instituies 
no explicitam sua finalidade, de outro os psiclogos no recebem formao especfica 
para atuao em contexto diverso dos tradicionais e, no vendo possibilidade de aplicao 
do instrumental e tcnicas para os quais foram treinados, em sua maioria (mais de 50%), 
desistem ou manifestam desejo de desistir desse tipo de trabalho.
Portanto, constata-se hoje sensibilizao por parte da classe psicolgica e de algumas 
instituies para as neces-
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sidades de, um atendimento comunitrio; o mesmo no se d a nvel dos poderes 
constitudos a quem caberia a montagem da infra-estrutura necessria para viabilizar a 
institucionalizao desse tipo de atendimento.
Estamos no nvel da discusso de quem so os profissionais da sade, quais as leis 
que os regem e qual seu campo de competncia.
O delineamento de, uma poltica de Sade Mental Comunitria e sua posterior 
institucionalizao no parece ser prioritria em termos poltico-sociais entre ns, e, o que  
mais grave, quando em pauta de discusso, tem excludo do processo boa parte dos 
profissionais que deveriam nele estar envolvidos, entre os quais, os psiclogos.
Portanto, no temos o poder para implementar tais mudanas, mas, pergunto, temos o 
poder para sensibilizar os rgos pblicos para o problema? Temos os meios instrumentais 
para tanto? Sabemos quais so as necessidades dos segmentos da populao menos 
favorecida? Nossas tcnicas so adequadas a essas necessidades? Enfim, podemos fazer 
um trabalho voltado para a comunidade tanto em moldes clnicos como de sade pblica 
visando a preveno?
Como j mencionado, claro est que condies reais de mudana a nvel das 
instituies sociais em geral escapam  esfera de ao do psiclogo.
Porm,  nosso o desafio de mudar, e, para tanto, temos que atuar em vrios nveis.
Na formao do psiclogo, possibilitando a conscientizao de seu papel social, a 
mudana dos papis tradicionais, a sensibilizao para as diferenas das necessidades das 
vrias classes sociais e instrumentando-o adequadamente para o atendimento dessas 
necessidades.
Na atuao como professor, pesquisador e profissional liberal, realizando pesquisas de 
levantamento da populao e de suas necessidades, intervenes experimentais, contro-
ladas, tipo pesquisa-ao, onde os resultados so frutos de avaliaes, anlises crticas, 
reflexes que possam nortear novas intervenes, criando ou adaptando novas tcnicas,
21




em funo da experincia adquirida no contato com os vrios grupos sociais.
Na atuao social e poltica, a nvel de profissionais da rea, promovendo encontros, 
discusses, troca de experincia a fim de criar conhecimento til, tanto para os prprios 
sujeitos do conhecimento, como para o desenvolvimento de uma psicologia voltada para a 
comunidade; e a nvel dos rgos pblicos, oferecendo resultados que justifiquem a 
institucionalizao da Psicologia, pois se houver espao nos hospitais, escolas, creches, 
postos de sade e outras instituies para o psiclogo e outros profissionais de sade men-
tal, haver condies para um dilogo entre as instncias profissionais, polticas e sociais 
que permita uma real transformao da relao entre os poderes constitudos e a 
assistncia prestada ao povo.
Como se v, a gama de problemas a serem enfrentados  enorme e o grau de 
problematizao escapa ao nvel da atuao individual ou de pequenos grupos.

4. O QUE TEM SIDO FEITO

Do consenso sobre a necessidade de mudana derivou a ao de grupos e instituies 
em carter particular, favorecendo a preveno de modo incipiente, s vezes indireto.
De modo geral, o trabalho com grupos comunitrios, com famlias e com indivduos em 
crise, permite, atravs da mudana de enfoque e das tcnicas usadas, que se alcance 
algum grau de preveno primria ( sociedade em geral) pela facilitao dos processos 
grupais e de comunicao, reorientao dos esforos dos pais no sentido de melhor 
compreenso de suas relaes com os filhos e diminuio da tenso relacionada s 
dificuldades afetivo-emocionais no atendimento eficaz do indivduo em crise.
A maior parte desse trabalho ainda  realizada fora do ambiente natural do sujeito e diz 
respeito, muito mais,  aplicao de novos modelos de atendimento queles que procuram 
as instituies preocupadas com o problema. Portanto, atinge o nvel da preveno 
secundria, indireta, na
22




medida que a finalidade desta  a reduo da prevalncia de distrbios emocionais atravs 
do diagnstico realizado o mais precoce e prontamente possvel e do tratamento rpido e 
eficaz, no s para o cliente eleito, como para os outros a ele relacionados, relevantes para 
a resoluo do problema.
Nesse sentido, as escolas tm sido, aqui como em outros pases, a maior fonte de 
clientela, principalmente em termos de encaminhar os alunos para atendimento, possi-
bilitando que atravs deles suas famlias sejam atingidas e se tornem tambm sujeitos do 
atendimento, dando lugar  preveno primria de que falvamos.

Essas mobilizaes ainda incipientes caberiam na caracterizao de Psicologia 
Comunitria em seu modelo clnico como foi descrito, porm um programa voltado para a 
sade mental da comunidade, orientado para a preveno em todos os nveis, ainda  uma 
promessa, ou melhor, uma expectativa, uma esperana.




REFERNCIAS BIBLIOGRAFICAS

CARVALHO, A. M. A. Modalidades Alternativas de Trabalho para Psiclogos Recm-
formados. Simpsio sobre Campos Recentes em Psicologia. SBPC: Belm, PA, 1983.
HERSCH, C" The discontent explosion in Mental Health. American
        Psychologist 1968, 13, pp. 497-506.
KORCHIN, S. J. Modern Clnical Psychology. Basic Books, Inc. New
        York, 1976.
LIMA E SILVA, P. S., LIMA E SILVA, M. A. PRZEMYSLAW, R., & MONTEIRO, M. E. D. "Quem 
est pirando no Rio de Janeiro?"; as transformaes da demanda de psicoterapia. Cincia 
e Cultura. 35 (8); ago. 1983, pp. 1078-1100.
MELLO, S. L.. Psicologia e Profisso em So Paulo. tica, So Paulo,
        1975.
MONTEIRO, M. E. D. A demanda atual e sua configurao: quem es
        t pirando no Rio? Cincia e Cultura, 35 (8); ago., 1983.
SMITH, M. B. & HOBBS, N. The community and community Men
        tal Health Center. American Psychologist. 1966, 21, pp. 499-509.
        WYATT, F. What is Clinical Psychology? In: A. Z. Guiora & M. A.
        Brandwin. Perspectives in Clinical Psychology. Van Nostrand,
        Princetown, 1968.

23



CARACTERSTICAS
DA CLIENTELA DE CLNICAS

Escola de Psicologia em So Paulo 

Marlia Ancona Lopez 

Realizamos um levantamento, em 1979 e 1980, dos clien. tes que procuraram as 
clnicas psicolgicas da cidade de So Paulo, ligadas a cursos de Psicologia que eram 
reconhecidos pelo MEC em 1977. Esse levantamento foi realizado com o objetivo de 
avaliarmos esses servios de psicologia clnica, gratuitos ou semigratuitos, analisando-se a 
demanda, realizao e resultados dos servios prestados (Ancona-Lopez, 1981). Todos os 
casos inscritos nessas clnicas, em 1977, foram verificados, caracterizando-se a demanda 
atravs do conhecimento da clientela quanto a sexo, idade, nvel scio-econmico e 
queixas apresentadas. Verificamos, tambm, ndices de procura e de atendimentos. 
Pretendemos, neste artigo, apresentar os dados obtidos que permitam conhecer a clientela 
que procura essas clnicas psicolgicas.
24




1. PROCEDIMENTOS UTILIZADOS

Foram levantados 2.826 casos atravs do exame de fichas e pronturios das 
instituies citadas. Para cada varivel examinada estabelecemos algumas categorias.
a) As idades foram agrupadas em faixas de 5 at 35 anos, estabelecendo-se em seguida 
duas faixas: 35 a 50 anos e acima de 50 anos. Adotamos essas categorias baseadas em 
dados obtidos em estudo prvio.
b) A varivel sexo foi simplesmente transcrita: feminino ou masculino.
c) Para determinar o nvel scio-econmico, pretendamos usar dados de endereo, 
escolaridade e rendimento. Como, porm, o nico dado de informao seguro obtido sobre 
os clientes foi o endereo, baseamos nele a classificao scio-econmica. Para isso 
usamos a subdiviso do municpio de So Paulo em seis reas homogneas segundo 
critrios de renda familiar, saneamento bsico, densidade demogrfica, crescimento 
populacional, uso residencial do solo urbano e mortalidade proporcional (So Paulo, 
Secretaria da Economia e Planejamento, 1977). Ao nvel 1 corresponde o mais alto padro 
scio-econmico e, ao nvel 6, o menor.
d) O levantamento das queixas apresentadas foi feito atravs de uma anlise da transcrio 
da primeira entrevista do cliente. Utilizamos como categorias os critrios apresentados por 
Anthony (1975) em sua taxonomia dos distrbios de comportamento: funcional 
(alimentao, eliminao, sono, movimentao, fala); cognitivo (pensamento, memria, 
aprendizagem, orientao, testes de realidade); afetivo (temor, ansiedade, depresso-
elao, vergonha-culpa, nojo); social (ataque-esquiva, oposio, dominncia-submisso, 
sexual); integrativo (parco controle de impulsos, baixa tolerncia  frustrao, rigidez-
estereotipia, enfrentamento inadequado, desorganizao). Consideramos ainda a categoria
25






"no h queixa" para os casos em que o cliente veio  clnica apenas obedecendo o 
encaminhamento, no apresentando, porm, nenhuma queixa prpria.
e) Quanto  varivel "procura" consideramos o cliente "encaminhado" sempre que veio  
clnica por sugesto de outros parentes, conhecidos, profissionais ou instituies. Quando 
procurou a clnica por motivao prpria consideramos a procura "espontnea".
f) Para ndices de atendimento utilizamos as seguintes categorias encontradas no estudo 
prvio j citado: em espera (inscreveu-se e ainda no foi chamado, encontrando-se em lista 
de espera); no compareceu (inscreveu-se, porm no compareceu quando chamado para 
atendimento); encaminhado (compareceu e foi encaminhado aps o atendimento para outra 
instituio psicolgica); atendido em novo local (compareceu e continua o atendimento em 
outro local com a mesma pessoa que o atendeu na instituio); aguarda novo atendimento 
(compareceu e foi atendido em uma rea da instituio, aguardando novo atendimento em 
outra rea da prpria instituio); atendimento suspenso (compareceu e suspendeu o 
atendimento por iniciativa prpria); alta (compareceu e teve alta); em atendimento 
(compareceu e encontra-se em atendimento); h informaes falhas (compareceu e no se 
encontram informaes sobre o atendimento do caso).

Para todas essas variveis inclui-se a categoria no h informaes e, para as 
variveis procura, nvel scio-econmico, queixas e atendimentos, a categoria no se 
enquadra.
Os dados das diferentes instituies foram tratados conjuntamente e tabulados em um 
computador Burroughs 6.700 atravs do programa "Statistical Package for the Social 
Sciences" (Bent, 1976), obtendo-se tabela de freqncia da varivel faixa etria e tabelas 
de cruzamento das outras variveis com esta.
26




2. DADOS OBTIDOS

Apresentamos aqui, de forma simplificada, a tabela de freqncia da varivel faixa 
etria (Tabela 1) e as seguintes tabelas de cruzamento: faixa etria x procura (Tabela 2), 
faixa etria x sexo (Tabela 3), faixa etria x nvel scio-econmico (Tabela 4), faixa etria x 
queixas (Tabela 5), faixa etria x atendimentos (Tabela 6). Nas tabelas de cruzamento 
colocamos o nmero bruto do cruzamento de cada categoria e a percentagem calculada 
sobre o total da linha.
Essas tabelas constituem, por si ss, pontos de interesse na medida que espelham 
uma situao de fato e refletem caractersticas dessa situao.

Apresentamos cada tabela descrevendo os pontos que nos chamaram a ateno e que 
sero utilizados para discusso posterior.


TABELA 1

Faixa Etria

Freqncia absoluta e relativa da distribuio por faixa etria da populao que 
procurou Clnicas-escola de Psicologia, em So Paulo, no ano de 1977.



Freqncia
Freqncia
Categorias
absoluta
relativa



(%)
No h informaes
193
6,9

1 a 5 anos
158
5,6
6 a 10 anos
913
32,3
11 a 15 anos
494
17,5
16 a 20 anos
438
15,5
21 a 35 anos
427
15,1
36 a 50 anos
149
5,3
mais de 50 anos
54
1,9
Total

2.826
100

Na Tabela 1 podemos verificar, na coluna de freqncia relativa, que 5,6% da 
populao que procura a clnica est entre 1 e 5 anos, 32,3 % entre 6 e 10 anos e 17,5 % 
entre 11 e 15 anos. Somando-se estas freqncias verificamos que
27




55,4% da populao situa-se entre 1 e 15 anos, sendo que 49,8% est entre 6 e 15 anos, 
isto , na faixa de idade escolar.
Ainda nesta tabela podemos ver que, entre os adultos, apenas 5,3% situa-se na faixa 
de 36 a 50 anos e 1,9% tem mais de 50 anos. Entre 16 e 20 anos encontramos 15,5% da 
populao-e, entre 21 e 35 anos, 15,1%.

TABELA 2

Faixa Etria x Procura

Distribuio da populao que procurou as Clnicas-escola de Psicologia em So Paulo, 
no ano de 1977, de acordo com faixa etria e forma de procurar a clnica.


No h in-
Espontnea
Encami-
Total
etria
formaes

nhada

No h informa-
22

15
157

194
es
11,5%
7,3%
81,3%

1 a 5 anos
14

50
94

158

8,9%
31,6%
59,5%

6 a 10 anos
89

216
607

912

9,8%
23,7%
66,6%

11 a 15 anos
40

134
320

494

8,1%
27,1%
64,8%

16 a 20 anos
57

209
172

438

13,0%
47,4%
39,3%

21 a 35 anos
48

212
167

427

11,2%
49,6%
39,1%

36 a 50 anos
29

77
43

149

19,5%
51,7%
28,9%

Mais de 50 
anos
20

23
11

54

37,0%
42,6%
20,4%

No se 
enquadra

O'
O

O
O


0%
0%

0%

Total
319

936
157
1

2826

11,3%
33,1 %
55,6%
100,0
%

28






Na Tabela 2, faixa etria x procura, notamos que, at os 15 anos, predominam os 
casos encaminhados: 59,5% entre 1 e 5 anos; 66,6% entre 6 e 10 anos e 64,8% entre 11 e 
15 anos. A partir dessa faixa etria os casos encaminhados passam a ser sobrepujados 
pelos casos que procuraram a clnica espontaneamente: 47,4% de procura espontnea 
entre os 16 e 20 anos para 39,3% de encaminhados; 49,6% de procura espontnea entre 
os 21 e 35 anos para 39,1 % de casos encaminhados; 51,7% de espontneos entre 36 e 50 
anos para 28,9% de encaminhados e 42,6% de espontneos para 20,4% de encaminhados 
acima de 50 anos.

TABELA 3

Faixa Etria x Sexo

Distribuio da populao que procurou as Clnicas-escola de Psicologia em So Paulo, 
no ano de 1977, de acordo com a faixa etria e o sexo.




No h in-




Faixa
formaes

Feminino
Masculino
Total
etria





No h 
informa-
9

116
67
192
es
4,7%

60,4%
34,9%

la5anos
3

64
91
158

1,9%

40,5%
57,6%

6 a 10 anos
0

288
623
912

0,1%

31,6%
68,3%

11 a 15 anos
0
I
168
326
494

0,0%

34,0%
66,0%

16 a 20 anos
0

263
175
438

0,0%

60.0%
40,0%

21 a 35 anos
0

291
136
427

0,0%

68,1%
31,9%

36 a 50 anos
0

113
36
149

0,0%

75,8%
24,2%

Mais de 50 
anos
0

43
11
54

0,0%

79,6%
20,3%

No se 
enquadra
1

0
1
2

50,0%

0,0%
50,0%

Total
12

1346
1466
2826

0,5%

47,6%
51,9%
100,0
%

29




Na Tabela 3, vemos que de 1 a 15 anos predomina o sexo masculino e acima de 16 
anos predomina o sexo feminino. De fato, na faixa de 1 a 5 anos temos 57,6% de procura 
do sexo masculino para 40,5% de procura do sexo feminino; na faixa de 6 a 10 anos, 
68,3% de masculino para 31,6% de feminino e, na faixa de 11 a 15 anos, 66,0% de 
masculino para 34,0% de feminino, enquanto que, dos 16 aos 20 anos, verificamos 40,0% 
de masculino para 60,0% de feminino; dos 21 aos 35 anos, 31,9% de masculino para 
68,1% de feminino; dos 36 aos 50 anos, 24,2% de masculino para 75,8% de feminino e, 
acima de 50 anos, 20,3% de masculino para 79,6% de feminino. Atravs desses mesmos 
dados notamos, tambm, que o predomnio de procura por parte das mulheres acentua-se 
com a idade.


Na Tabela 4, faixa etria x nvel scio-econmico chamaram-nos a ateno os 
seguintes pontos: 38,9% de procura de pessoas de nvel scio-econmico 1, entre os que 
tm mais de 50 anos; predomnio da populao de nvel scio-econmico 4, 5 e 6 nas 
outras faixas etrias: de 1 a 5 anos, 23,4% de nvel 4, 12,'1% de nvel 5, 13,3% de nvel 6; 
de 6 a 10 anos, 15,9% de nvel 4, 24,7% de nvel 5, 14,6% de nvel 6; de 11 a 15 anos, 
15,4% de nvel 4, 23,1 % de nvel 5, 16,2% de nvel 6; 16 a 20 anos, 17,8% de nvel 4, 
15,8% de nvel 5, 12,3% de nvel 6; de 21 a 35 anos, 13,6% de nvel 4, 18,5% de nvel 5, 
13,6% de nvel 6; de 36 a 50 anos, 20,8% de nvel 4, 16,1 % de nvel 5, 10,1 % de nvel 6.
30


TABELA 4

Faixa Etria x Nvel Scio-econmico
        Distribuio da populao que procurou as Clnicas-escola de Psicologia em So 
Paulo, no ano de 1977, de acordo
com a faixa etria e ndices de nvel scio-econmico.












scio-










-econ-
No h in-
ndice
ndice
ndice
ndice
ndice
ndice
No se en-
Total

co
formaes
1
2
3
4

5
6
quadra

Faixa











etria











No h informa-
75
18
12
10
33
32

8
4
192
es

39,1%
9,4%
6,3%
5,2%
17,2%
16,7%
4,2%
2,1%

1 a 5 anos

32
14
9
11
37
20

21
14
158


20,3%
8,9%
5,7%
7,0%
23,4%
12,7%
13,3%
8,9%

6 a 10 anos

145
76
46
81
145
225

133
61
912


15,9%
8,3%
5,0%
8,9%
15,9%
24,7%
14,6%
6,7%

11 a 15 
anos
..
68
52
23
46
76
114

80
35
494


13,8%
10,5%
4,7%
9,3%
15,4%
23,1%
16,2%
7,1%

16 a 20 
anos

60
57
46
40
78
69

54
34
438


13,7%
13,0%
10,5%
9,1%
17,8%
15,8%
12,3%
7,8%

21 a 35 
anos

55
43
53
50
58
79

58
31
427


12,9%
10,1%
12,4%
11,7%
13,6%
18,5%
13,6%
7,3%

36 a 50 
anos

19
15
14
15
31
24

15
16
149


12,8%
10,1%
9;4%
10,1%
20,8%
16,1%
10,1%
10,7%

mais de 50 
anos
6
21
5
6
9

1
1
5
54


11,1%
38,9%
9,3%
11,1%
16,7%
1,9%
1,9%
9,3%

No se 
enquadra
1



1
O



2


50,0%
0,0%
0,0%
0,0%
50,0%
0,0%
0,0%
0,0%

Total

461
296
208
259
468
564

370
200
2826


16,3%
10,5%
7,4%
9,2%
16,6%
20,0%
13,1 %
7,1%
100%








TABELA 5











Faixa Etria x Queixas






Distribuio da populao que procurou as Clnicas-escola de Psicologia, em So Paulo, no 
ano de 1977, de acordo




com a faixa etria e a queixa apresentada.









Comport
o
Compor
to
Compo
rto
Comport
o
Comporto
No h
No se en-
,
Total




Funcion
al
Cognitiv
o
Afetivo
Social
Integrativo
Queixa
s
quadra


.-..-
---












No h 
informa-
30
2
0
5
151
1
0
3

I
192
es

15,6%
1,0%
0,0%
2,6%
78,6%
0,5%
0,0%
1,6%


1 a 5 anos

8
41
11
32
30
28
1
7

I
158


5,1%
25,9%
7,9%
20,3%
19,0%
17,7%
0,6%
4,4%


6 a 10 
anos
166
146
279
106
138
149
4
24

I
912


7,2%
16,0%
30,6%
11,6%
15,5%
16,3%
0,4%
2,6%


11 a 15 
anos
r 33
60
121
67
90
98
4
20

I
494


6,7%
12,1%
24,5%
13,8%
18,2%
19,8%
0,8%
4,0%


16 a 20 
anos
r-34
14
51
123
125
62
10
19

I
438


7,8%
3,2%
11,6%
28,1%
28,5%
14,2%
2,3%
4,3%


21 a 35 
anos
I 28
9
11
162
142
52
2
21
'
I
427


6,6%
2,1%
2,6%
37,9%
33,3%
12,2%
0,5%
4,9%


36 a 50 
anos
r12
6
1
62
43
22
0
3

I
149


8,1%
4,0%
0,7%
41,6%
28,9%
14.,8%
0,0%
2,0%


mais de 50 
anos I
19
0
3
18
9
4
0
1

I
54


35,2%
0,0%
5,6%
33,3%
16,7%
7,4%
0,0%
1,9%


no se enquadra ro
0
0
1
1
0
0
0

I
2




0,0%
0,0%
50,0%
50,0%
0,0%
0,0%
0,0%


Total














32





Na Tabela 5, notamos a maior procura na faixa de 1 a 5 anos, por queixa de distrbio 
do comportamento funcional (25,9%) e a pouca procura por distrbio do comportamento 
cognitivo (7,9%), Na faixa seguinte, de 6 a 10 anos, salientamos o aumento de queixas de 
distrbios cognitivos (30,6%) que continuam a predominar na faixa de 11 a 15 anos 
(24,5%). A partir dos 16 anos, comeam a salientar-se as queixas de distrbios do 
comportamento afetivo (28,1%, entre 16 e 20 anos, 37,9% entre 21 e 35 anos, 41,6% entre 
36 e 50, 33,3% acima de 50 anos) e do comportamento social (28,5% entre 16 e 20 anos, 
33,3% entre 21 e 35 anos, 28,9%, entre 36 e 50 anos e 16,7% acima de 50 anos).


Na Tabela 6, os ndices totais de no-comparecimento (31,1%) e de atendimento suspenso 
(23,0%), surpreendem por somarem, juntos, 54,9% da populao. Por faixa etria 
verificamos que o ndice de alta de 1 aos 5 anos  de 9,5 % e  o maior encontrado, sendo 
que o ndice geral de altas  de 4,6%, salientando-se, nas outras faixas etrias, os ndices 
de no-comparecimento, encaminhamentos e atendimentos suspensos.

33






TABELA 6

Faixa Etria x Atendimento
        Distribuio da populao que procurou as Clnicas-escola de Psicologia em So 
Paulo, no ano de 1977, de acordo com a faixa etria e a situao de atendimento.

OBSERVAO: O sistema de scanner do ncleo no aceitou essa tabela.
33







3. DISCUSSO DOS DADOS
Na discusso dos dados optamos por uma forma livre, na qual selecionamos os que 
nos chamaram a ateno, por coincidirem com pontos relevantes observados em nossa 
prtica clnica junto a duas das instituies verificadas e no contato com a populao  qual 
se refere este trabalho. Alm da experincia utilizamos, na discusso, leituras relacionadas 
aos temas abordados que auxiliaram a fundamentar nossas hipteses explicativas.

3.1. As crianas e os adolescentes

Alguns grupos de clientes nos chamaram particularmente a ateno. Um deles  o 
grupo constitudo pelas crianas que se encontram na faixa escolar, isto , dos 6 aos 15 
anos.
Dos 6 aos 10 anos encontramos, como vimos, 32,3% da populao que procura a 
clnica e, entre n e 15 anos, 17,5% (Tabela 1). Vemos, portanto, que 49,8% dessa 
populao se encontra em idade escolar. Esse grande nmero nos leva a pensar que, 
realmente,  ao ingressar na escola que a criana se defronta com a necessidade de 
corresponder s expectativas familiares e sociais.
No momento da entrada na escola h uma avaliao da
capacidade produtiva da criana atravs de seu xito escolar. Essa avaliao, centrada na 
produo escolar, constitui, na realidade, uma avaliao, tambm, do papel de pai e de 
me e um prognstico familiar. Avaliao do papel de pai e de me na medida que as 
causas dos distrbios so, usualmente, atribudas a fases anteriores da vida da criana, 
nas quais os pais desempenham um papel fundamental. Prognstico familiar na medida 
que  atravs do sucesso escolar que a populao acredita poder ascender econmica e 
socialmente.
O fracasso escolar pressagia, portanto, o insucesso dos esforos para elevar o nvel 
scio-econmico da famlia, causando grande ansiedade, o que poderia justificar a nfase 
na queixa de escolaridade na procura  clnica nessa faixa etria: 30,6% de queixas de 
distrbio cognitivo entre 6 e 10 anos, e 24,5% entre n e 15 anos (Tabela 5).

35



O fracasso das crianas do sexo feminino parece no assumir a mesma importncia 
que o do sexo masculino. De fato, entre 6 e 10 anos temos uma procura de 31,6% de me-
ninas contra 68,3% de meninos e, entre 11 e 15 anos, 34,0% de meninas para 66,0% de 
meninos (Tabela 3). Podemos considerar que, usualmente, so atribudos papis de "dona-
de-casa" e "me" s mulheres e estes papis dependem menos da escolaridade do que os 
papis atribudos aos meninos. Alm disso, como diz Rosemberg (1975) as condies de 
ensino escolar e o tipo de comportamento exigido na escola, levam as meninas a se sarem 
melhor do que os meninos.

 interessante verificar que, apesar do que dissemos acima, mostrando a importncia 
que assume para os pais o sucesso escolar, a maior parte das crianas dessa idade que 
chega s clnicas vm encaminhadas por outras instituies ou pessoas, e no, trazidas 
espontaneamente pelos' pais. Dos 6 aos 10 anos, 66,6% procuram a clnica por sugesto. 
de terceiros, assim como, 64,8% entre 11 e 15 anos (Tabela 2). Nossa experincia nos 
permite afirmar que essas crianas so encaminhadas, em sua maior parte, pelas escolas e 
professores.
Os pais dificilmente detectam qual a dificuldade da criana, percebem apenas as 
conseqncias dessa dificuldade, isto , a no-aprendizagem e a reprovao. Dificuldades 
de ordem afetiva, social e funcional, so menos citadas nessas faixas de idade do que na 
anterior (Tabela 5), como se assumissem menor importncia diante de suas conseqncias 
referentes  aprendizagem.
Na faixa de idade anterior, so citadas poucas vezes dificuldades cognitivas (7,9% de 1 
a 5 anos, Tabela 5). A diferena entre essa porcentagem e da faixa etria seguinte nos leva 
a pensar que entre 1 e 5 anos, as dificuldades cognitivas, mesmo quando observadas, so 
toleradas e atribudas a problemas que sero superados com o crescimento. Com a entrada 
na escola, assumem grande importncia e faIa-se delas como se tivessem surgido de um 
momento para o outro e no fossem uma continuao de dificuldades anteriores.
36



Assim, temos de um lado um desconhecimento de problemas de desenvolvimento e da 
noo de distrbios evolutivos de conduta, como diz Grunspun (1966) e, de outro lado, 
caractersticas das expectativas parentais. Os pais parecem ser pouco exigentes na fase 
pr-escolar, quando esperam que a criana amadurea naturalmente e aceitam sua 
produo sem parmetros externos, e, extremamente exigentes quanto  competncia e 
eficincia, quando se inicia a vida escolar.
A criana passa de uma fase a outra sem grande ajuda, principalmente a criana de 
nvel scio-econmico baixo, que no tem oportunidade de freqentar a pr-escola, e  
colocada, sem preparo, em um esquema de competio e avaliao. A tenso emocional 
decorrente dessa mudana no costuma ser examinada. A criana  considerada pro-
blemtica na medida que no obteve o sucesso esperado; o fracasso  atestado pela 
professora que a encaminha para atendimento psicolgico como forma de solucion-lo con-
seguindo uma adaptao  escola, e a indicao  aceita pelos pais como correta.

No h nenhum questionamento a respeito de se verificar se  mesmo interessante 
adaptar a criana a uma escola que, como diz Copit (1977), no foi concebida nem es-
truturada a partir de suas necessidades, mas sim a partir de valores, normas e ideais que 
no so os do meio ao qual pertence. A indicao  assumida como justa, e a adaptao 
vista como a melhor soluo, prevalecendo como ideal a possibilidade de ascenso social 
atravs da escolaridade.
O encaminhamento para as clnicas psicolgicas transforma-se na possvel soluo 
para o problema, alm de diminuir a ansiedade decorrente da culpa pelas dificuldades 
atuais e possvel fracasso futuro do filho.

Se os pais trazem seus filhos s clnicas sem conhecimento mais preciso de suas 
dificuldades, tambm os professores que os encaminham no tm dados consistentes a 
respeito. No questionam possveis causas do fracasso escolar, externas  criana. No h 
tentativas de se compreender esse fracasso como decorrncia de processos sociais, 
educacionais e ambientais.
37




No se considera o fato de o sistema escolar, como lembra Patto (1981),' favorecer 
crianas que foram mais estimuladas em casa, que freqentaram a pr-escola, e as srias 
desvantagens com que ingressam na escola, as crianas provenientes de um meio 
diferente daquele em funo do' qual o sistema escolar foi estabelecido. No se notam, 
tambm, tentativas de se lidar com esse fracasso atravs de revises das tcnicas 
pedaggicas e educacionais.
O fracasso  atribudo a problemas do menor que , ento, tido como necessitado de 
ajuda, e encaminhado para, tratamento, resolvendo-se assim a questo para a escola, que 
delega a soluo  outra instituio.
As expectativas dos pais ao chegarem  clnica, segundo nossa experincia, so de 
recuperao escolar imediata, no se notando conhecimento dos processos que possam 
ser utilizados. As condies prticas de atendimento o tornam muitas vezes invivel, por 
problemas de distncia, horrio, gastos com conduo, faltas no trabalho, dificuldades de 
deixar casa e filhos, considerando-se que grande parte dessa populao se situa nos nveis 
scio-econmicos 4, 5 e 6 (Tabela 4).
Essas dificuldades, ligadas a um atendimento pouco conhecido, parecem contribuir 
para o grande nmero de desistncias e de no-comparecimentos (Tabela 6).
Podemos, tambm, buscar explicaes em outra direo levantando as seguintes 
questes: deveriam mesmo essas crianas, entre 6 e 15 anos (32,3% entre 6 e 10 anos e 
17,5010 entre 11 e 15 anos, Tabela 1), serem encaminhadas s clnicas psicolgicas? A 
menor procura de 1 a 5 anos (5,6%, Tabela 1) no refletir, em parte, uma atitude mais 
cautelosa do que a adotada por pais e professores a partir da entrada na escola? O maior 
ndice de altas obtido na faixa de 1 a 5 anos (9,5%, Tabela 6) no poder indicar maior ade-
quao da vinda s clnicas, em oposio ao baixo ndice de altas das duas faixas etrias 
posteriores (3,6% entre 6 e 10 anos, 3,8% entre 11 e 15 anos, Tabela 6)?
So questes que merecem maior estudo e que auxiliariam a esclarecer o que se 
encontra por detrs da forma es-
38




tabelecida: atribuir as dificuldades a problemas intra-psquicos das crianas e encaminh-
Ias s clnicas psicolgicas, excluindo-se de antemo outras causas.
A partir dos 16 anos, as queixas ligadas a dificuldades cognitivas diminuem 
consideravelmente (11,6% entre 16 e 20 anos, Tabela 5). Os meninos que no se saram 
bem na escola e que possuem um nvel scio-econmico mais baixo, so, provavelmente, 
encaminhados ao trabalho. A procura  clnica por parte dos mesmos diminui (40% do sexo 
masculino entre 16 e 20 anos para 66,0% entre 11 e 15 anos e 68,3% entre 6 e 10 anos, 
Tabela 3).
Aumentam, nessa faixa etria, as dificuldades de ordem afetiva (28,1 % de queixas de 
distrbio afetivo entre 16 e 20 anos para 13,8% entre 11 e 15 anos e 11,6% entre 6 e 10 
anos, Tabela 5). Essas dificuldades parecem ser reconhecidas pelos prprios adolescentes, 
na medida que se salienta um componente de tomada de deciso prpria, verificado o 
aumento de procura espontnea das clnicas (47,4% entre 16 e 20 anos para 27,1 % entre 
11 e 15 anos, Tabela 2).
Cabe, frente a estes fatos, um estudo mais profundo relacionando nvel scio-
econmico e expectativas familiares ligadas  realizao escolar do adolescente. Parece-
nos, como dissemos, que a expectativa  maior na classe mdia que visa  ascenso 
social. Nos nveis scio-econmicos mais baixos, o adolescente j  considerado apto para 
o trabalho e, nas classes sociais mais altas, a existncia de uma garantia econmica futura 
leva o adolescente a buscar realizao pessoal no obrigatoriamente atravs do sucesso 
escolar.

A partir dos 16 anos comeam a ocorrer algumas modificaes interessantes na 
procura s clnicas. A populao que , at os 15 anos, predominantemente masculina, 
torna-se predominantemente feminina.

3.2. As mulheres

A procura, por pessoas do sexo feminino, vai acentuar-se a partir dos 16 anos e, 
principalmente, acima de 21 anos (60,0% de procura de sexo feminino dos 16 aos 20 anos, 
68,1 % dos 21 aos 35 anos, 75,8% dos 36 aos 50 anos, 79,6%
39





acima de 50 anos, Tabela 3). Passa a prevalecer, tambm, a procura espontnea em 
relao  vinda por indica~ (47,4% de procura espontnea entre 16 e 20 anos para 39,: de 
encaminhados, 49,6% de espontneos entre 21 e 35 ar para 39,1% de encaminhados, 
51,7% de espontneos entre e 50 anos para 28,9% de encaminhados e, acima de 50 an 
42,6% de espontneos para 20,4% de encaminhados, Tabela
Podemos entender esse fato se pensarmos nos problemas da mulher. Como diz 
Graciano (1975), a educao usual, em nossa sociedade, diferencia os papis femininos 
masculinos desde a infncia. A mulher  considerada emotiva e maternal, dependente, 
passiva e conformada. Essas caractersticas so valorizadas pela famlia e reforadas peIa 
escola primria. Blay (1975) mostra que, no incio da vida adulta, os primeiros empregos 
masculinos so aceitos com satisfao e trazem ao meio familiar uma sensao de alvio 
de responsabilidade. Os primeiros empregos femininos so vistos como provisrios, de 
durao curta, j que sero suspensos com o casamento. Suspender o trabalho e dedicar-
se ao lar  uma forma de mostrar no apenas que o papel feminino est sendo bem 
desempenhado, mas tambm que o papel masculino est sendo bem preenchido. A mulher 
que trabalha indica, de certa forma, que o homem no preenche a contento seu papel, j 
que no prov sozinho o sustento da famlia.

As mulheres passam, assim, a exercer, em sua maioria um trabalho domstico que  
considerado sem valor econmico na medida que no  remunerado. No entanto, embora 
desvalorizado, esse  o nico trabalho que lhes  permitido. A maior ou menor abertura de 
outras possibilidades de trabalho, extradomiciliar, depende menos da iniciativa pessoal do 
que da manipulao da estrutura social e condies econmicas. Esta manipulao, como 
diz Cardoso (1980), vai desde a oferta efetiva de trabalho, estabelecimento de 
remunerao e possibilidades de ascenso profissional limitadas, at a inexistncia de 
infra-estrutura social que libere a mulher da sua dependncia domstica.
So permitidas, s mulheres, atividades externas ao lar desde que as mesmas se 
constituam numa extenso do pa-
40




pel domiciliar ou num complemento ao mesmo. Mello (1975) mostra que as prprias 
mulheres, educadas desde a infncia para assumir um papel secundrio, se dirigem, 
quando trabalham, a atividades consideradas prprias para o seu sexo.
Assim, confinada ao trabalho domstico, privada de uma participao social mais 
ampla, a mulher tem poucas oportunidades de desenvolver-se como pessoa. Acostuma-se 
a depender dos outros e assumir poucas iniciativas. Suas inquietaes no encontram 
canais de derivao e sua insatisfao  pouco compreendida.
Nesta situao as clnicas psicolgicas situam-se como locais de fcil acesso. Procurar 
obter informaes, indicaes e conhecimentos psicolgicos  visto como uma forma de 
desenvolver o papel emotivo e maternal. Solicitar ajuda, orientao,  um comportamento 
de dependncia ao qual esto habituadas. O atendimento gratuito, em ambiente protegido, 
realizado na maioria dos casos por mulheres, parece facilitar a procura espontnea (47,4% 
da procura espontnea entre 16 e 20 anos para 39,3% de encaminhadas e 49,6% entre 21 
e 35 anos para 39,1% de encaminhadas, Tabela 2). Por outro lado, o atendimento surge 
como uma possibilidade de reservar a si prpria algum tempo e ateno, sentidos como 
necessrios, e que podem ser justificados pelos benefcios que podem trazer para a vida 
familiar.  uma tentativa de obter alguma autonomia e independncia.

Entre os 36 e 50 anos, acentua-se a procura por problemas de ordem afetiva (41,6%, 
Tabela 5). Segundo Beauvoir (1976), o declnio fsico, alteraes hormonais, a diminuio 
da solicitao do papel maternal e da funo nutriente, tornam esse perodo crtico e difcil. 
H uma mudana na percepo do tempo, e a previso  de perda do sentido da vida.
Segundo Goldberg (1975), nos nveis scio-econmicos mais altos, h maior 
conscientizao do problema feminino e do envelhecimento, e h mais alteraes da rotina 
de vida do que em nveis scio-econmicos mais baixos.

Nessa faixa de idade, as famlias de classe mdia atingiram, em geral, posio 
econmica mais tranqila, o que,
41




se por um lado traz maiores possibilidades de realizao, por outro lado traz maiores 
problemas  mulher que se caracterizou at agora como dona-de-casa. Os homens passam 
a usufruir o que conseguiram e a buscar maior afirmao pessoal, o que se d mais fora de 
casa do que no meio familiar. A mulher, em casa, v seus objetivos anteriores tornarem-se 
menos significativos. H, ainda, preconceitos ligados  pr-menopausa e  menopausa que 
atribuem s mesmas todas as alteraes psicolgicas que ocorrem. Essas alteraes 
atribudas a uma causa nica no so verificadas em todas as suas conotaes.

3.3. Os idosos

A partir dos 50 anos a procura s clnicas diminui consideravelmente ( 1,9 % de procura 
acima de 50 anos, Tabela 1).
Nessa faixa etria a procura  feita, principalmente, por pessoas de nvel scio-
econmico 1 (38,9%, Tabela 4) e  rara nos nveis scio-econmicos 5 e 6 (1,9 % em 
ambos, Ta. bela 4).

Podemos pensar que nos nveis scio-econmicos menos favorecidos, a velhice 
instala-se prematuramente e tornam-se mais raras as tentativas de mudana do estado de 
coisas. O tempo de vida , tambm, mais curto. A falta de perspectiva e a falta de futuro 
justificam a pouca procura verificada por idosos nesses nveis.
Sabemos que, segundo Beauvoir (976), acima de 50 anos imiscuem-se problemas 
fsicos e psicolgicos, conjunto de sintomas agravados pela situao de marginalizao da 
velhice. A procura espontnea, que diminui em relao s outras faixas etrias adultas 
(47,4% entre 16 e 20 anos, 49,6% entre 21 e 35 anos, 51,7% entre 36 e 50 anos, 42,6% 
acima de 50 anos, Tabela 2), parece ser prejudicada, alm da falta de condies prticas e 
deteriorizao social, pela dificuldade de adotar novos hbitos e novas solues.
Evidentemente, o nmero de idosos de nvel scio-econmico melhor, salienta-se 
(38,8% de nvel scio-econmico 1, Tabela 4), mostrando que so os que tm mais condi-
42





es para cuidar de si prprios e para quem os problemas prticos de tempo e sobrecarga 
de exigncias externas, normalmente, no existem mais.
As queixas continuam sendo predominantemente de ordem afetiva (33,3%, Tabela 5). 
No contato com essa populao nota-se que as expectativas so mais de receber apoio do 
que de encontrar solues rpidas para seus problemas.

3.4. Os homens

No podemos deixar de considerar a faixa da populao adulta que chama a ateno 
pelo pouco comparecimento: os homens. De fato, se, entre 16 e 20 anos, temos 40,0% de 
procura do sexo masculino, esta porcentagem diminui para 31,9% entre 21 e 35 anos, 
24,2% entre 36 e 50 anos, 20,3% acima de 50 anos (Tabela 3). Acreditamos que ex-
plicaes para esse pouco comparecimento devam ser procuradas, da mesma forma que 
as explicaes para a grande procura feminina, nos esteretipos sociais impostos pela 
educao.
Tradicionalmente, aos homens no cabe procurar ajuda. Graciano (1975) diz que os 
homens so educados para serem independentes, capazes de controlar situaes pro-
blemticas e enfrentar conflitos. Admitem assim, com mais dificuldade, a ansiedade e 
aprendem a sufocar emoes fortes. Seu papel exige a manuteno de uma fachada de 
fora e de controle.
So estimulados  auto-suficincia e recompensados por realizaes econmicas, 
intelectuais e sexuais. Tendem a buscar para problemas internos, solues externas, e pro-
curam resolv-Ios modificando suas condies e situaes de vida mais do que voltando-se 
para si prprios. Desdenham, assim, aspectos de sua personalidade no voltados ao 
sucesso exterior.
Familiarmente, o pai assume o papel de provedor econmico deixando  esposa os 
cuidados e responsabilidades referentes  educao dos filhos. Assim, mesmo quando a 
clnica  procurada por problemas com a prole, e mesmo
43



quando a famlia no apresenta dificuldades prticas para comparecer a ela, a presena do 
pai  bastante rara.
A grande quantidade de mulheres existentes na profisso de psicologia constitui mais 
um empecilho, na medida que procurar psiclogo seria reconhecer conflitos que so 
sentidos como sinais de fraqueza diante de pessoas ( sexo que aprenderam a desvalorizar, 
e frente ao qual se consideram superiores.
Mais fcil  reconhecer uma dificuldade que possa s caracterizada como doena, e 
escape ao campo do afetivo-emocional cheio de conotaes femininas. Se considerarmos 
que, nos atendimentos psiquitricos, a nvel hospitalar, h uma inverso do fato, como 
mostram Guedes e outros (972), com maior procura por parte dos homens do que por parte 
das mulheres, podemos entender que o homem no seu papel de mantenedor da famlia, e 
estando sujeito s presses culturais citadas,  levado a camuflar sua problemtica. 
Quando no consegue mais faz-Io, encontra-se mais prejudicado e recorre aos servios 
mdicos que lhe do maior segurana pelo status tradicional da profisso, predomnio de 
profissionais masculinos na mesma e maior possibilidade de negar os aspectos afetivo-
emocionais dos seus problemas, atribuindo-os a distrbios de fundo orgnico.

4. CONCLUSO

Como poderamos entender, globalmente, o comparei mento de grande nmero de 
crianas na faixa de idade E colar, de mulheres na faixa da idade adulta e o pouco 
comparecimento de homens e idosos?
A questo da procura envolve, sem dvida, esteretipo, sociais, mas ao que parece, vai 
alm deles.
As clnicas psicolgicas so utilizadas como locais ( derivao de problemas, que a 
sociedade no reconhece c mo seus e para os quais, no oferece possibilidades de 
solues, individualizando-os e desfazendo-se, assim, de responsabilidade pelos mesmos.
44




So, tambm, aceitas e consideradas necessrias na medida que se supem que 
desempenharo um papel de ajustamento. So locais de cura, cura esta compreendida 
como readaptao; para eles so, pois, encaminhados os casos que se consideram 
passveis de ser reabilitados.
O atendimento psicolgico transforma-se, assim, em atributo do grupo considerado 
socialmente mais fraco, grupo este que em nossa sociedade  constitudo pelas pessoas 
que no compem as foras de trabalho: as crianas, as mulheres e os idosos.
Colocada a questo nestes termos,  compreensvel que a procura s clnicas siga as 
caractersticas verificadas.
As crianas, embora representem uma futura fora de trabalho, colocam-se, na medida 
que no produzem escolarmente, numa situao limite entre a integrao e a margi-
nalizao social. As mulheres no tm suas atividades domsticas reconhecidas como 
produtivas e encontram fechadas outras possibilidades de trabalho. Os idosos no fazem 
mais parte das foras produtivas, porm no so encaminhados s clnicas na medida que, 
para eles, no h futuro.
Talvez, apesar das dificuldades prticas enfrentadas pela populao e apesar dos 
problemas existentes nas instituies, o grande nmero de pessoas inscritas que no com-
parecem ao atendimento quando chamadas, ou que desistem aps o incio do mesmo, 
reflita a percepo de que no  destas instituies que partir a soluo para seus pro-
blemas, uma vez que as causas dos mesmos no se situam, em grande parte, no nvel 
individual.

REFERNCIAS BIBLIOGRAFICAS


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45





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        sidenciais do Municipio. So Paulo, 1978.

46




ATENDIMENTO PSICOLGICO 
EM CLNICAS - ESCOLA 
Marlia Ancona Lopez 
No levantamento ao qual se refere o captulo anterior, preocupamo-nos no apenas em 
conhecer a clientela que chega s Clnicas-escola, mas tambm em verificar quais os 
resultados dos atendimentos oferecidos a fim de realizar mudanas, tornando esses 
atendimentos mais adequados  p0- pulao. 
1. DADOS LEVANTADOS 
Atravs da consulta a fichas e pronturios das clnicas consultadas, obtivemos informaes 
sobre distribuio da populao por faixa etria, modalidades de atendimentos oferecidos, 
comparecimentos e motivos de desistncias. 
Para cada uma dessas variveis estabelecemos algumas 
categorias: 
a) As idades, como j dissemos, foram agrupadas em faixas etrias de 5 anos at os 35 
anos, estabelecendo-se em seguida duas faixas: 35 a 50 anos e acima de 50 anos. 
Adotamos essas categorias baseadas em pesquisa-piloto. 
47 



b) com relao ao atendimento oferecido foram levantadas as diferentes reas de 
atendimento das clnicas verificadas, e foram classificadas da seguinte forma: reas de 
pesquisa de informa o-psicodiagnstico, reas de reeducao, reas de orientao-
aconselhamento e reas de psicoterapia. Para essa classificao utilizamos o conceito de 
psicoterapia de Wolberg (1954): forma de tratamento de problemas de natureza emocional 
em que uma pessoa habilitada estabelece deliberadamente relacionamento profissional 
com o cliente, a fim de remover, modificar ou retardar sintomas existentes, ou intervir em 
comportamentos desajustados, promovendo o desenvolvimento da personalidade. 
Distinguimos ainda, de acordo com o mesmo autor, orientao e aconselhamento, de 
psicoterapia, j que aqueles se dedicariam, basicamente, ao auxlio do crescimento. Como 
reas de reeducao, consideramos aquelas voltadas ao treino de disfunes especficas. 
c) Os comparecimentos aos atendimentos foram agrupados de acordo com possibilidades 
encontradas no estudo prvio j citado, ou seja: Em espera (no foi chamado encontrando-
se ainda em espera). No compareceu (foi chamado para atendimento, porm no 
compareceu); Em atendimento (compareceu e encontra-se em atendimento); Atendimento 
suspenso (compareceu e suspendeu o atendimento por iniciativa prpria); Aguarda novo 
atendimento (terminou uma modalidade de atendimento e aguarda novo atendimento na 
mesma instituio); Encaminhado (compareceu e foi encaminhado para atendimento 
psicolgico em outra instituio); Atendido em novo local (compareceu e continua o 
atendimento em outro local com a mesma pessoa que o atendeu na instituio). 
Informaes falhas (compareceu e no se tm informaes sobre o ocorrido em relao ao 
atendimento); Alta (compareceu e teve alta) 
48


 
d) Os motivos de desistncia, isto , os motivos que levaram os clientes a no 
comparecerem mais  clnica ou a suspenderem o atendimento foram agrupados da 
seguinte forma: Mudana de residncia (impossibilidade de se estabelecer contato com o 
cliente para cham-lo por mudana de residncia, cidade ou estado); Problemas de 
distncia-horrio (problemas de distncia e ou de horrio tornando o comparecimento 
invivel); Problemas temporrios (problemas temporrios na famlia ou no trabalho 
impedindo o comparecimento); Atendimento em outra instituio (atendimento j sendo 
realizado em outra instituio quando da chamada); Sem motivao e ou necessidade 
(ausncia de necessidade ou motivao para o atendimento quando da chamada); Faltas 
(faltas no justificadas ao atendimento). 
Para cada uma das variveis acrescentamos as categorias: No se enquadra  e No h 
informaes. 
Os dados foram tabulados por um computador Burroughs 6700 de acordo com o programa 
Statistical Package for the Social Sciences (Bent, 1976), obtendo-se tabelas de freqncia 
das variveis faixa etria, comparecimentos e motivos de desistncia a uma tabela de 
cruzamento da varivel faixa etria com a varivel reas de atendimento. 
2. APRESENTAO DOS DADOS 
Apresentamos a seguir, de forma simplificada, as tabelas de freqncia da distribuio da 
populao por faixa etria (Tabela 1), freqncia aos comparecimentos (Tabela 2), 
freqncia dos motivos da desistncia (Tabela 3) e tabela de cruzamento da varivel faixa 
etria x reas de atendimento (Tabela 4). 
Na descrio de cada tabela selecionamos os dados que nos pareceram significativos para 
discusso posterior. 
49 


TABELA 1 
Freqncia da distribuio da populao que procurou Clnicas-escola de Psicologia em 
So Paulo, em 1977, por faixa etria. 

Categorias 
Freqncia 
absoluta 
Freqncia 
relativa (%) 
No h informaes 
1 a 5 anos 
6 a 10 anos 
11 a 15 anos 
16 a 20 anos 
21 a 35 anos 
36 a 50 anos 
Mais de 50 anos 
193 
158 
913 
494 
438 
427 
149 
54 
6,9 
5,6 
32,3 
17,5 
15,5 
15.1 
53 
1,9 
Total 
2.826 
100 

Na Tabela 1, podemos verificar que a maior distribuio por faixa etria se situa entre os 6 
e 10 anos e  de 32,3/o. Se acrescermos a essa percentagem os 17,5% da freqncia 
correspondente  faixa etria de 11 a 15 anos, verificaremos que 49,8% da populao que 
procura as clnicas situa-se entre 6 e 15 anos. Entre os adultos verificamos 30,6% de 
procura entre os 16 e 35 anos; 15,5/o entre 16 e 20 anos e 15,1% entre 21 e 35 anos. 
TABELA 2 
Freqncia de distribuio da populao que procurou Clnicas-escola de Psicologia em 
So Paulo, em 1977, por situao de comparecimento
Categorias 
Freqncia 
absoluta 
Freqncia 
relativa (%) 
Em espera 
No compareceu 
Em atendimento 
Atendimento suspenso 
Aguarda novo atendimento 
Encaminhado 
Atendido em novo local 
Informaes falhas 
Alta 
No h informaes 
No se enquadra 
144 
879 
61 
650 
48 
336 
59 
73 
131 
155 
290 
5,1 
31,1 
2,2 
23,0 
1,7 
11,9 
2,1 
2,6 
4,6 
5,5 
10,2 
Total 
2.826 
100,0 

50

Verificamos na Tabela 2, que 3 1,1% no compareceram quando chamados para 
atendimento, apesar de se terem inscrito para o mesmo; 23,0% iniciaram o atendimento e o 
suspenderam no meio, e ll,9% foram encaminhados para atendimento psicolgico em outra 
instituio, depois de terem iniciado esse atendimento nas clnicas. Verificamos ainda que 
no se tem nenhuma informao sobre o ocorrido com 5,5% dos clientes e sobre o 
ocorrido, aps o incio do atendimento, com 2,6% dos clientes. Apesar de o levantamento 
s ter verificado casos inscritos h mais de 24 meses, vemos nessa tabela que 5,1% dos 
clientes no haviam ainda sido chamados, continuando em lista de espera, 4,6 % foram 
atendidos e receberam alta, 2,2% ainda estavam em atendimento, 2,1% saram das clnicas 
para continuar o atendimento com o mesmo profissional, em outro local e 1,7% terminaram 
uma modalidade de atendimento e aguardavam outra. 
Constatamos dessa forma que 54,1% dos clientes deixaram as clnicas por vontade prpria 
(31,1% no compareceram para atendimento e 23,0% suspenderam o mesmo); 14/o 
deixaram as clnicas por sugesto das mesmas sem que seu atendimento estivesse 
completo (11,9 % foram encaminhados e 2,1/o passaram a ser atendidos em novo local). 
Somando-se a estes dados as porcentagens referentes aos casos sobre os quais no se 
tem nenhuma informao a respeito de o fato de terem ou no iniciado o atendimento 
(5,5%), ou do que se passou aps o incio dos mesmos (2,6%) e os casos que, aps dois 
anos de inscrio, ainda no haviam sido chamados (5,1%), verificamos que 81,3 % dos 
casos no chegaram a receber um atendimento efetivo. Dos restantes, repetimos, 4,6 % 
tiveram alta, 3,9% continuavam vinculados s clnicas: em atendimento (2,2%) ou 
aguardando nova modalidade de atendimento (1,7%), e 10,2 % no se enquadraram nas 
categorias propostas. 
Verificamos, na Tabela 3, que 45,5% dos casos suspenderam o atendimento sem que se 
conhecessem os motivos pelo qual o fizeram. Apenas 11,4% dos casos suspenderam o 
atendimento citando o motivo pelo qual o fizeram. 
51 



TABELA 3 
Distribuio, por motivos de desistncia, da populao que procurou as Clnicas-escola de 
Psicologia em So Paulo, em 1977. 


Categorias 
Freqncia absoluta 
Freqncia 
relativa (/o) 
Mudana de residncia 
Distncia-horrio 
Problemas temporrios 
Atendido em outra Instituio 
Sem motivao e/ou necessidade 
Faltas 
No h informao 
No s enquadra 
86 
33 
35 
59 
110 
1.285 
138 
1.080 
3,0 
1,2 
1,2 
2,1 
3,9 
45,5 
4,9 
38,2 
Total 
2.826 
100,0 

Na Tabela 4, podemos notar que a distribuio dos atendimentos nas faixas de 1 a 5 anos, 
6 a 10 anos e 11 a 15 anos concentra-se na rea de pesquisa-diagnstico: 60,8% entre 1 e 
5 anos, 58,2% entre 6 e 10 anos, 46,6% entre 11 a 15 anos. A partir dos 16 anos essa 
concentrao desloca-se para as reas de orientao-aconselhamento: 50,0% entre 16 e 
20 anos, 46,6% entre 21 e 35 anos, 51,0% entre 36 e 50 anos, 70,4% acima de 50 anos. 
3. DISCUSSO 
Utilizamos, para discusso, a mesma forma utilizada para discusso dos dados 
apresentados no captulo anterior, isto , alm da leitura dos dados obtidos, nossa 
experincia de trabalho junto a duas dessas instituies e informaes obtidas junto  
bibliografia referente ao assunto. 
Podemos perceber o comportamento das clnicas bastante contraditrio: o servio  
estabelecido para os clientes, porm grande parte da clientela no  chamada ou  
encaminhada para fora; a maior parte da clientela desiste durante o atendimento, sem 
explicar seus motivos, e, em pou-
52 



TABELA 4 

Distribuio, por faixas etrias e por reas de atendimento, da populao que procurou as 
Clnicas-escola de psicologia em So Paulo, em 1977.










atendi-
No h intor-
Pesquisa
Psicote-
Orientao-
Reeducao -
No se en-

mento



aconselha.


Total
Faixa
maes
diagnstico
rapias
mento
-excepcional
quadra

etria








No h informa-
3
4
10
151
15
9

192
es
1,6%
2,1%
5,2%
78,6%
7,8%
4,7%

1 a 5 anos
2
96
40
2
5
12

158

1,3%
60,8%
25,3%
1,3%
3,2.%
7,6%

6 a 10 anos
16
531
176
6
77
106

912

1,7%
58,2%
19,3%
0,7%
8,4%
11,6%

11 a 15 anos
14
230
109
41
45
55

494

2,8%
46,6%
22,1%
8,3%
9,1%
11,1%

16 a 20 anos
14
71
92
219
6
36

438

3,2%
16,2%
21,0%
50,0%
1,4%
8,2%










21 a 35 anos
8
45
142
199
1
32

427

1,9%
2,5%
33,3%
46,6%
0,2%
7,5%

36 a 50 anos
3
15
43
76
O .
12

149

2,0%
10,1%
28,9%
51,0%
0,0%
8,1%

Mais de 50 anos
O
4
10
38
O
2

54

0,0%
7,4%
18,5%
70,4%
0,0%
3,7%

No se enquadra
O
O
1
1
O
O

2

0,0%
0,0%
50,0%
50,0%
0,0%
0,0%

Total
60



149
264
-
2826


996
623
733





2,1%
35,2%
22,0%
25,9%
5,3%
9,3%
100,0%

1. Porcentagens calculadas sobre o total da linha.
53




qussimos casos, as dlinicas podem dizer ter realizado um trabalho completo. 
Essa situao pode ficar mais clara se considerarmos os conflitos que as clnicas 
psicolgicas enfrentam a nvel tcnico, da identidade profissional, do campo de 
competncia do psiclogo, do conhecimento psicolgico e da funo  qual servem na 
sociedade. 
3.1. Problemas tcnicos 
A nvel tcnico, os conflitos so facilmente compreensveis. As tcnicas psicolgicas no se 
desenvolveram em nosso pas, no se desenvolveram junto  populao de nvel scio-
econmico baixo, foram importadas e implantadas sem considerao de condies 
ambientais, culturais e pessoais, O tempo usualmente necessrio para completar um 
atendimento psicolgico  longo e pouco apropriado s condies da clientela e do trabalho 
das clnicas verificadas. Embora os profissionais procurem utilizar rigorosamente as 
tcnicas conhecidas no conseguem faz-lo, o que, de certa forma, provoca alvio uma vez 
que, caso conseguissem, conduziriam as clnicas  situao de atender apenas um 
pequeno nmero de clientes e por longo tempo. Essa situao exigiria uma extrema 
negao da realidade social que se faz evidente e pressiona as instituies atravs das 
solicitaes constantes de clientes. 
Os encaminhamentos para diferentes reas de atendimento que variam, como vimos na 
Tabela 4, basicamente, em funo da idade, nos fazem pensar que os clientes so 
distribudos de acordo com as tcnicas e no estas de acordo com os clientes. 
Algumas tcnicas de desenvolvimento mais recente, que, como mostra Jubelini (1982), 
permitem um atendimento mais adequado s condies das clnicas e da populao, so 
de implantao difcil uma vez que exigem mobilizao dos profissionais que no foram 
preparados, em sua formao, para aplic-las. 
Os profissionais que trabalham nas Clnicas-escola, usualmente, no podem sobreviver 
apenas do que recebem 
54 



dessas Instituies, e trabalham, freqentemente, em consultrio particular, aperfeioando 
tcnicas diferentes das que so necessrias  Instituio. Alm disso, contratados, em 
geral, apenas para atividades didticas, tm pouco contato com a populao que vem  
clnica. 
Como lidar com esse conflito? Aceitar o cliente para, em seguida, verificar a impossibilidade 
de atend-lo e encaminh-lo para outras instituies; aceitar o cliente, defrontar-se com 
suas condies prticas de vida, verificar a incompatibilidade entre o que necessita e o que 
se tem a oferecer, e estabelecer um vnculo to frgil que permita ao mesmo desaparecer 
ou ao profissional esquecer o caso; no chamar aquele cliente cujas condies, j de incio, 
se mostram pouco viveis para os atendimentos a serem oferecidos, deixando-o 
indefinidamente numa lista de espera; realizar uma modalidade de atendimento e enviar o 
cliente a outro local, a outro profissional, eximindo-se da responsabilidade pela continuao 
do caso; esses parecem ser os comportamentos adotados. 
A questo dos encaminhamentos para outras agncias de atendimento merece maior 
reflexo. Casos so encaminhados de outras instituies para as clnicas psicolgicas que, 
por sua vez, os reencaminham.  fcil verificar um grande fluxo de clientes os quais, na 
realidade, no chegam a ter suas necessidades atendidas em nenhum dos locais para os 
quais so indicados. 
A inexistncia do servio necessitado pelo cliente, excessiva lista de espera e inexistncia 
de vagas, impossibilidade de fornecer atendimentos de urgncia so os principais motivos 
que levam a esses reencaminhamentos. O fato  que os clientes so encaminhados para 
outras instituies porque no podem ser atendidos naquela que procuraram, mas sem 
nenhuma garantia de que a situao que encontraro no novo local ser diferente. 
O sucesso das indicaes no  verificado por quem as faz. Ser o encaminhamento 
realizado na crena de que poder ser efetivo? Parece-nos que o encaminhamento  a 
sada que o profissional encontra diante da impossibilidade de responder satisfatoriamente 
ao pedido de atendimento: 
55 



indicar outro local que funcionaria como forma de apaziguamento deixando o profissional 
com a sensao de ter feito algo pelo cliente. 
A dificuldade de conseguir atendimento, a falta de locais de servio psicolgico para a 
populao de baixa renda ficam, assim, camufladas; no so assumidas pelo profissional 
nem expostas aos clientes. A responsabilidade pelo atendimento  passada adiante. 
Esses comportamentos tornam-se mais compreensveis se lembrarmos que s dificuldades 
tcnicas e de ordem prtica se somam dificuldades no campo terico. 
3.2. Dificuldades tericas 
A questo das altas  um exemplo claro das dificuldades tericas, e pode ser verificada 
neste estudo. Sabemos que no h consenso quanto  definio de alta e dos critrios que 
a determinam. Essa falta de consenso encontra- 
-se vinculada a outras questes mais amplas que se colocam ao psiclogo. O problema 
est ligado  dificuldade de se compreender o normal e anormal, de se conceituar doena e 
cura, determinar condies de evoluo de psicoterapia. De forma ainda mais ampla, a 
questo est relacionada com a definio do campo de competncia do psiclogo e 
determinao de seus objetivos. 
Abandonando, como propem Marcondes e Andreucci (1972), os conceitos de doena e 
cura, adotando critrios de alta, mais subjetivos ou menos subjetivos, modificando a postura 
profissional e colocando a questo em termos de trmino de contrato ou trmino de 
psicoterapia, o psiclogo defronta-se, como mostra Yahn (1972), com o mesmo problema: 
encontrar um esquema conceitual operativo e referencial que lhe permita uma avaliao do 
trabalho com o cliente. 
Esse problema  acentuado pela conscincia do psiclogo de que apenas a experincia 
clnica  insuficiente para propor prticas mais definidas. Torna-se difcil, assim, para o 
psiclogo assumir o trmino do atendimento.  mais fcil propor uma nova modalidade, 
continuar o atendimen-
56


 
to do cliente ou encaminh-lo a outro profissional do que assumir a responsabilidade de 
considerar o caso terminado. 
Podemos relacionar o que se passa com a atuao dos profissionais, nas clnicas 
psicolgicas, com dificuldades ligadas  definio de sua identidade profissional. 
3.3. A identidade profissional e o campo de competncia do psiclogo 
A falta de identidade profissional reflete-se na m delimitao do campo e objetivo de 
trabalho, na no-avaliao 
do mesmo, na insegurana frente s atuaes. 
Como nos mostra Pessotti (1975), a psicologia desenvolveu-se no pas muito 
recentemente. A atuao do psiclogo e seu reconhecimento profissional existem h pouco 
tempo e  natural, portanto, que sua identidade no esteja ainda bem estabelecida. 
O profissional encontra-se colocado entre a necessidade de ter que atuar com instrumentos 
que percebe pouco adequados, a ter que ensinar teorias e tcnicas que no esto 
suficientemente desenvolvidas e assegurar, com esses instrumentos, seu lugar na 
sociedade. 
Ocampo e Arzeno (1976) nos dizem que o caminho percorrido pelos psiclogos foi at o 
momento o de adotar identidades de outros profissionais: o prprio termo clnica traz uma 
conotao imediata com a profisso mdica. A tendncia a repetir modelos j bem 
conhecidos e desenvolvidos e transmiti-los aos estagirios, evitando questionar sua 
adequao, garante uma segurana profissional que, na realidade,  precria. 
Fica, assim, de lado, o papel que no momento caberia ao psiclogo, que  o de estabelecer 
um processo constante de aprendizagem, questionamento e procura de uma forma de 
atuao adequada s condies pessoais, culturais e sociais da clientela. 
Encontramos, aqui, outro problema: o do campo da competncia, problema esse discutido 
de forma ampla por 
57 
Guilhon (s. d.), em relao s profisses que lidam com o ser humano. 
 difcil, para o psiclogo, decidir o que  e o que no  de sua competncia dentro da 
prpria clnica psicolgica, aceitando, portanto, indiscriminadamente, os clientes que lhes 
so encaminhados. Na medida que esses clientes se inscrevem, passam a ser examinados 
apenas do ponto de vista individual. A instituio, aceitando o cliente e considerando seu 
ponto de vista pessoal, aceita que o mesmo deveria ter-lhe sido encaminhado. Concorda 
que o cliente deve ser atendido por um psiclogo, que cuidar das dificuldades do mesmo  
atributo desta profisso, que tem, portanto, recursos para lidar com o caso. 
A instituio assume, desse modo, a responsabilidade por esses casos e arca com as 
conseqncias pela no-resoluo dos mesmos. Atribui-se, ento, s falhas profissionais, a 
ineficcia do atendimento. Cabe perguntar se a falha profissional situa-se a nvel tcnico ou 
encontra-se na no-delimitao, clara do campo de competncia. 
Essa no-delimitao, nos ltimos tempos, tem-se acentuado com a extenso da atuao 
do psiclogo a problemas at agora considerados normais, mas existe desde o incio do 
desenvolvimento da psicologia no Brasil, quando o termo clnica, como mostra Meilo 
(1975), indicava basicamente a atividade autnoma, no havendo grande discriminao 
quanto ao tipo de atividade que era realizado sob esse nome. Embora as Clnicas-escola 
no se caracterizem como locais da trabalho autnomo, mantm a mesma indefinio. 
Essa indefinio do campo de competncia permite que a Instituio seja utilizada 
inadequadamente. 
Podemos, portanto, concluir que problemas de ordem tcnica, terica, de indefinio de 
identidade e campo de competncia do psiclogo, refletem-se em sua atuao junto  
clientela das Clnicas-escola de Psicologia, tornando a eficcia do atendimento 
questionvel, quando se consideram os resultados do mesmo frente  demanda. 
A pouca eficcia do trabalho , de modo geral, negada, atravs da reduo dos problemas, 
dos clientes e da Insti-
58 



tuio, a nveis individuais. Dessa forma, as clnicas tornam-se locais facilmente utilizados 
para derivao de problemas amplos que a sociedade no reconhece como seus, 
individualizando-os. 
4. CONSEQUNCIAS DO LEVANTAMENTO REALIZADO 
A partir das discusses referentes aos resultados deste levantamento, procuramos, em 
duas instituies, estabelecer condies de atendimento que, considerando as 
caractersticas da populao, tomassem o servio mais eficiente e mais adequado. 
Consideramos como Attkinson (1978), Bragger (1978), Rossi, Freeman e Wright (1979), 
que as instituies sociais so produtos de valores e crenas da sociedade onde se 
localizam, e que a organizao das instituies reflete e operacionaliza a ideologia 
ambiente. Diante dos conflitos subjacentes as instituies e profissionais adotam posturas 
defensivas que se refletem na organizao dessas instituies. 
Decidimos, portanto, discutir toda a organizao do 
trabalho dentro destas clnicas e explicitar os princpios 
ideolgicos nos quais basearamos nossos atendimentos. 
Alguns aspectos foram considerados fundamentais nesta nova estruturao: 
a) Considerar os clientes no apenas na sua especificidade individual, mas levar em conta 
tambm as caractersticas do grupo social ao qual pertencem e as especificidades do meio 
onde vivem. 
b) Redistribuir o poder existente na relao psiclogo-cliente, considerando-se que este 
ltimo  o seu prprio agente de transformao. 
c) Considerar o conhecimento como contingente dependendo de uma forma de 
compreenso e de um mtodo de estudo em transformaes contnuas. 
Conseqentemente, as tcnicas perdem seu carter de regras imutveis e tornam-se 
estratgicas, utilizveis ou no, conforme o caso ao qual se aplicam. 
59 



d) Considerar qualquer sistematizao dentro da instituio como provisria e passvel de 
reestruturao em benefcio dos clientes. 
Em funo destes aspectos modificamos a rotina de atendimento, e introduzimos as 
seguintes tcnicas: Grupos de Espera, Psicodiagnstico emGrupo, Psicoterapias Breves, 
Grupos Estruturados de Vivncia para Pais e de Orientao de Pais. 
A introduo dessas tcnicas e o seu desenvolvimento exigiram mobilizao de toda a 
equipe de trabalho no sentido de estabelecerem-se grupos de estudo e uma srie de 
contatos com profissionais que enfrentavam ou haviam enfrentado situaes semelhantes e 
buscado solues para as mesmas.3 As tcnicas foram introduzidas, de incio 
experimentalmente, posteriormente sistematizadas e tornaram-se atividades de rotina 
nessas instituies (Ancona Lopez, 1982). 
Os Grupos de Espera, o Psicodiagnstico em Grupo e os Grupos Estruturados de Vivncia 
para Pais so apresentados e discutidos neste livro. Para Psicoterapias Breves f oram 
adotadas as tcnicas j conhecidas de psicoterapias conforme apresentadas por Wollberg 
K.nobel (1971), Fiorini (1971, 1981), Kusnetzoff (1975), Bellack e Small (1980). 
Aps a introduo dessas modificaes, notamos algumas alteraes no contato com os 
clientes. Em um novo levantamento realizado em uma das instituies (Ancona Lopez, 
1982), dois anos aps a introduo das modificaes, verificamos uma diminuio do ndice 
de no-compareci. mento e desistncia. De fato, este ndice reduziu-se de 54,1 % para 
27%. As desistncias passaram a ocorrer na primeira fase do atendimento tornando-se 
raras depois. Tal dado leva a crer que as tcnicas utilizadas se mostraram efetivas no 
sentido de facilitar ao cliente a compreenso do atendi-
60


 
mento que lhe seria oferecido, possibilitando ao mesmo condies para que optasse ou no 
por realiz-lo. 
Qualitativamente houve mudanas no contato com os clientes. Os pais, no final do Grupo 
de Espera, passaram a apresentar um melhor conhecimento do que  o atendimento 
psicolgico, a adequar suas expectativas e assumir ou no a necessidade do atendimento 
 sua participao. Revelaram tambm possuir elementos para situar-se frente ao 
atendimento grupal e aceit-lo ou no. Durante o Psicodiagnstico mostraram buscar 
ativamente chegar  compreenso do problema dos filhos, rever o vnculo estabelecido com 
eles e procurar novas formas de se relacionar. A partir dos grupos Estruturados de Vivncia 
para Pais passaram a entender melhor as tcnicas a serem usadas com as crianas e 
apresentaram expectativas mais adequadas em relao ao trabalho do profissional. Os 
Grupos de Orientao, paralelos ao atendimento das crianas, mostraram-se efetivos, 
apoiando os pais frente s dificuldades do atendimento dos filhos e audando, assim, a 
manter sua vinda  clnica. 
Estas modificaes sugerem que os modelos a serem utilizados em instituies de 
atendimento psicolgico sero tanto mais efetivos quanto mais contextualizados, isto , 
definidos a partir das caractersticas especificas de cada instituio e da populao que 
procura os seus servios. 
REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS 
ANCONA LOPEZ, M. Novas formas de atendimento psicolgico clnico institucional. 
TEMAS. So Paulo, XII, 22, jun. 1982. 
Consideraes sobre o atendimento fornecido por clnicas-escola de psicologia. Arquivos 
Brasileiros de Psicologia. 
Rio de Janeiro, 35, (2), 1983. 
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62 



GRUPOS DE ESPERA EM INSTITUIO 
Slvia Ancona Lopez Larrabure 
Uma das grandes dificuldades das instituies de atendimento gratuito so as longas listas 
de espera que se formam em conseqncia da excessiva demanda de clientes e do 
nmero limitado de profissionais para atend-los. 
Por outro lado, uma caracterstica marcante da populao que procura atendimento gratuito 
 o fato das pessoas (que na sua maioria vm encaminhadas por outras instituies) no 
estarem realmente motivadas para o atendimento, visto no compreenderem sua 
necessidade e desconhecerem o que  um servio psicolgico, uma vez que este tipo de 
trabalho no tem repercusso no seu universo educacional e cultural. 
Como Reiff, Riessman e outros apontaram, os menos favorecidos, 
freqentemente, vem seus problemas de modo di! erente dos clientes da classe mdia. 
A tenso psicolgica  sentida menos como devida a suas inadequaes pessoais do que 
pelas condies difceis impostas a eles. Seus problemas no residem no seu interior, mas 
surgem de fora. 
63 



Seguem os autores dizendo que o cliente das camadas menos favorecidas da populao 
...est orientado para a ao, espera ver as coisas serem leitas e tem pouca pacincia 
para conversar (in Korchin, 1976, p. 482). 
Acostumados  passividade diante das classes dominantes, os no-privilegiados 
normalmente aceitam a orientao daquelas, como meio de no perder certas posies j 
conquistadas. Assim, freqentemente encontramos pais que levam seus filhos a uma 
clnica psicolgica, porque a escola o exigiu para manter suas matrculas. 
Verificamos, outrossim, conforme aponta Ancona Lopez (1983), que por estas mesmas 
razes a freqncia de desistncias tem sido muito alta durante o tempo de espera e 
muitas vezes durante o prprio atendimento, e que grande nmero de clientes passa por 
vrias instituies, sem obter um atendimento efetivo. 
Percebidas estas caractersticas da populao, em uma Clnica-escola de So Paulo, criou-
se o espao necessrio para uma reviso crtica dos modelos de atendimento psicolgico, 
at ento adotados, levando-nos no apenas a procurar novas formas de atendimento, mas 
tambm a refletir sobre um contexto mais amplo. 
Sentimos que as inovaes tcnicas introduzidas no campo da Psicologia em nosso meio, 
nos ltimos anos, no so frutos de uma autntica conscincia da necessidade e de uma 
anlise de nossa realidade, mas fruto de atitude poltico-social no comprometida com esta 
realidade e de submisso a esquemas importados normalmente valorizados por nossos 
profissionais. 
Pareceu-nos importante tentar ampliar o mbito de atuao da Psicologia Clnica, que 
usualmente enfatiza os problemas de ordem individual, de modo a englobar novas 
concepes e necessidades sociais esquecidas at agora. Outrossim, tornou-se evidente 
que, se por um lado nossa forma de pensar nos levaria a uma nova atuao, por outro es- 
64 



tvamos apenas iniciando um caminho e contribuindo para um trabalho e uma 
conscientizao que comeavam a despontar em outras instituies do pas, isoladamente 
ou em contato conosco. 
Pesados todos os aspectos que apontamos e visando nos aproximarmos de nossa clientela 
e oferecermos atendimento mais imediato e eficaz, foram criados em 1979 o que 
chamamos de Grupos de Espera (GE), que descreveremos em linhas gerais, bem como, os 
objetivos a que se propem. 
O termo Grupo de Espera  encontrado na literatura em contextos os mais diversos: 
Rogers e Dymond (1954) utilizam-se do termo wait -group no relato de uma pesquisa cujo 
objetivo foi estudar os efeitos da terapia centrada no cliente e obter medidas psicolgicas e 
de comportamento antes, durante e aps a terapia. 
Korblit e Rascovsky (1970) relatam experincias com GE, no Centro de Sade Mental da 
Municipalidade de Buenos Aires. Tentando obter uma soluo entre a demanda comunitria 
de assistncia e as possibilidades de atendimento da instituio, decidiram converter a lista 
de espera em GE, como forma de conteno de pacientes adolescentes (12 a 20 anos), 
aps estes terem passado por estudo psicolgico, at sua incluso em grupos teraputicos. 
No Brasil, a equipe do Setor de Adolescentes do Instituto de Psiquiatria da UFRJ (Gradiva, 
1979), e o Servio de Aconselhamento Psicolgico da USP, dirigido por Rosemberg 
(Larrabure, 1982), desenvolveram trabalhos baseados na experincia argentina, 
oferecendo GE a adolescentes, no primeiro caso, e, no segundo, a adolescentes e adultos 
que aguardavam psicoterapia. 
Convm assinalar que estes GE, por se constiturem em espera para psicoterapia, diferem 
fundamentalmente dos grupos sobre os quais trata este capitulo. Por outro lado, todos 
procuram novas modalidades de atendimento psicolgico que resolvam o impasse em que 
se encontram as instituies de atendimento gratuito, ante a grande procura de clientes e a 
necessidade de atend-los adequadamente. 
65 



1. FORMAO DOS GE 
Os GE, como os concebemos, so grupos de curta durao formados por pais de crianas 
que aguardam o diagnstico psicolgico. Estes pais passam por uma entrevista de triagem 
(individual ou grupal) efetivada no momento em que procuram a instituio, e a partir da 
so encaminhados para os GE. 
No so encaminhados a estes grupos casos que, por observao realizada durante a 
triagem, so considerados 
necessitados de atendimento individual. 
Os GE so formados a partir de critrios estabelecidos pelos psiclogos por eles 
responsveis. Estes critrios podem ser variados, tais como: homogeneidade da queixa 
(dificuldade escolar, motra ou emocional), sexo ou faixa etria dos filhos, ordem de 
procura na clnica etc. Dois ou mais critrios podem se combinar na composio do grupo. 
O critrio comum a todos os grupos  no ter sido feito o psicodiagnstico da criana. 
2. OBJETiVOS DOS GE 
Apesar de os critrios para a formao dos GE poderem variar,  importante que os 
objetivos a que estes se propem sejam mantidos, pois  o que caracteriza tais grupos. 
Estes objetivos resultaram das discusses e estudos conjuntos da equipe de psiclogos 
que implantou os GE, considerando tanto as caractersticas da populao que procura 
atendimento gratuito, quanto os pontos comuns das instituies que propiciam estes 
atendimentos. 
2.1. Do ponto de vista da instituio 
a) atender a excessiva demanda de clientes evitando as longas listas de espera, 
b) diminuir o nmero de desistncias ao atendimento; c) identificar e eliminar sem perda de 
tempo profissional os candidatos altamente desmotivados; 
66 



d) selecionar os candidatos que devem ser encaminhados a outras agncias, e acomparhar 
este encaminhamento; 
e) executar um trabalho de pr-diagnstico, selecionando os casos mais adequados a cada 
tipo de atendimento oferecido pela instituio, os casos que necessitam de atendimento 
prioritrio e pedir exames ou atendimentos especificos como complementao para o 
psicodiagnstico (exames: neurolgico, fonoaudiolgico, mdico etc.). 
2.2. Do ponto de vista da clientela, trabalhar com os pais da criana em espera, buscando: 
a) melhor compreenso quanto  necessidade do atendimento; 
b) trabalho conjunto clnica-famlia no sentido de mobilizar os aspectos positivos da criana 
e buscar uma atitude mais ativa dos pais diante das dificuldades dos filhos; 
c) trabalhar a expectativa em relao ao psicodiagnstico e ao tratamento, procurando 
adequ-la  realidade; 
d) encaminhar para o psicodiagnstico, assim que for possvel, separando os casos que 
podem participar de diagnsticos grupais e os casos que necessitam de diagnstico 
individual; 
e) esclarecer o que  um servio de psicologia, quais as etapas do atendimento e como 
este se processa; 
f) explicar os recursos da instituio e trabalhar o vnculo com a mesma; 
g) aumentar a freqncia s sesses de atendimento, seja durante o psicodiagnstico, 
aps este ou durante a terapia, se necessrio; 
h) selecionar os pais que em caso de necessidade de terapia para seus filhos possam 
participar de orientao grupal e os casos que necessitam de orientatao individual; 
i) reconhecer e encaminhar os pais que necessitam de terapia para si ou para o casal. 
67 



3. NMERO DE PARTICIPANTES, FREQINCIA E DURAO 
O nmero de participantes de um GE, tanto quanto sua freqncia e durao, pode variar 
conforme as necessidades do grupo, a possibilidade de iniciar o atendimento das crianas 
e as caractersticas do psiclogo coordenador. 
Em nossa experincia, os GE so realizados uma vez por semana, com uma hora e meia 
de durao, O nmero de sesses mantm-se entre 4 e 10 e temos no mnimo 4 e no 
mximo 9 participantes. 
Alguns grupos so fechados, mantendo o nmero inicial de participantes e outros so 
abertos, possibilitando a 
entrada de novos elementos no decorrer do processo. 
Pudemos verificar que nas condies acima descritas os coordenadores tm tido 
oportunidade de acompanhar cada 
caso e atingir os objetivos a que se propuseram. 
4. FUNCIONAMENTO DOS GE 
4.1. Sesso inicial e contrato 
Os participantes dos GE aguardam na sala de espera a chamada para o incio da sesso. 
Esta chamada  feita nominalmente pelo psiclogo coordenador que os acompanha at a 
sala de atendimento. 
Estando todos acomodados, o psiclogo se apresenta dando seu nome e funo. Em 
seguida pede aos pais que tambm se apresentem e dem o nome do filho que os levou a 
procurar a clnica. 
Duranie a entrevista de triagem, os pais que so encaminhados aos GE recebem uma 
explicao sumria do qu seriam estes grupos. Na primeira sesso as explicaes so 
retomadas e aprofundadas, estabelecendo-se o contrato que  proposto de forma paulatina 
e de acordo com os questionamentos dos clientes. 
68 



Entendemos por contrato o esclarecimento do conjunto dos fatores espao, tempo, tcnica 
e papis (Bieger, 1967, 
Ocampo, 1976). 
Neste sentido o contrato tem por objetivo discutir os 
seguintes aspectos: 
a) Estabelecimento de horrios e interrupes previstas. Colocamos para os clientes o 
tempo de durao de cada sesso, horrio de incio e trmino e o dia da semana 
estabelecido para o encontro. Discutimos as possveis substituies de sesso se houver 
interrupes ou feriados. 
b) Local do encontro. Normalmente o contrato j  feito na sala onde se realizaro as 
sesses subseqentes do GE. Se por alguma razo houver necessidade de mudana de 
sala, isto  colocado previamente para os participantes. 
e) Sigilo profissional. Esclarecemos aos clientes que as sesses sero anotadas e 
eventualmente discutidas pela equipe de profissionais, O aspecto do sigilo profissional  
ressaltado, lembrando-se que os assuntos trazidos pelos participantes no sairo do mbito 
da instituio, salvo por necessidade de se enviar relatrios a outros profissionais. 
d) Atendimento gratuito. Na sua maioria os clientes que nos procuram j o fazem sabendo 
da gratuidade do atendimento. No entanto, este ponto  relembrado, colocando-se as 
caractersticas da instituio que permitem manter o atendimento nestes moldes. 
e) Freqncia. Ressaltamos a importncia dos pais assumirem o compromisso de participar 
de todas as sesses, visto que o GE  um processo que exige continuidade e que, por ser 
de curta durao, as faltas tm um peso maior do que num processo mais longo. 
Esclarecemos aos participantes que caso faltem duas ou mais vezes existe a 
impossibilidade de se manterem no grupo, devendo aguardar o incio de outro. No entanto, 
no caso de eventuais faltas, o coordenador mantm-se aberto s explicaes, estudando 
em cada caso e, de acordo com a evoluo do grupo, a possibilidade dos faltosos 
continuarem ou no. 
f) Grupo aberto ou fechado. Havendo um nmero mnimo de quatro clientes o grupo pode 
constituir-se como 
um grupo fechado. Se houver um nmero pequeno de par-
69


 
ticipantes, se ocorrerem desistncias nas primeiras sesses ou se o coordenador pretende 
atender um nmero maior de casos (at 9), o grupo pode constituir-se como um grupo 
aberto at o momento que se considerar que isto  possvel. 
g) Esclarecimento de papis. Esclarecer, na medida do possvel, o que se espera dos 
participantes e o que estes podem esperar dos psiclogos. Neste sentido colocamos a 
importncia da participao ativa dos pais, j que pretendemos um trabalho conjunto em 
que o pensar juntos  o aspecto mais importante. Enfatizamos que dificilmente haver 
respostas ou solues imediatas para as dificuldades trazidas, mas que esperamos poder 
esclarecer alguns dos aspectos destas dificuldades e abrir perspectivas de mudana. 
Alertamos os pais para o fato de que no estamos iniciando um tratamento e quais so as 
etapas (psicodiagnstico e psicoterapia) que podero se seguir ao GE. 
O contrato com o grupo tem ainda por objetivos: 
h) diminuir a ansiedade dos participantes diante de uma nova situao, a partir do momento 
em que passam a conhecer os elementos que comporo seu grupo; 
i) permitir uma viso inicial do que  um grupo e como este decorre; 
j) detectar previamente quais seriam as dificuldades que poderiam surgir, em razo das 
caractersticas de alguns elementos: pessoas verborrgicas ou com dificuldades 
acentuadas de compreenso, tiferenas sociais, intelectuais etc. Essas caractersticas nem 
sempre so possveis de ser observadas na entrevista de triagem j que esta , em geral, 
muito breve. 
4.2. Sesses subseqentes 
A segunda sesso dos GE, via de regra, se inicia com a colocao por parte do 
coordenador, de que os pais ali presentes vieram procurar a clnica por estarem 
preocupados com um de seus filhos. 
70 



Colocamos tambm que para que possamos ajud-los  importante que conheamos bem 
a eles e a seus filhos, e, j que a instituio no tem possibilidade de atender s crianas 
de imediato, procuraremos juntos a melhor maneira de compreender o que est se 
passando com eles, em relao a estas dificuldades. Lembramos que os pais so os que 
realmente conhecem seus filhos e que eles prprios podero fazer muito para minimizar 
seus problemas. 
Em seguida pedimos aos pais que, apesar de j t-lo feito na triagem, coloquem, no grupo, 
o porqu vieram  clnica e como chegaram at ela. A partir deste momento a participao 
 aberta para os pais. 
As sesses subseqentes dos GE no possuem esquemas 
a serem seguidos. 
4.3. Conduo das sesses 
Nas sesses dos GE, o coordenador procura criar uma atmosfera facilitadora que permita a 
colocao das dificuldades e de situaes muitas vezes consideradas constrangedoras, 
mas importantes para a compreenso da criana e sua famlia. No h obrigatoriedade de 
que todos os membros do grupo participem verbalmente, mas os muito silenciosos so 
instados a se colocar em alguns momentos. 
As sesses so livres quanto aos temas a serem discutidos, mas o coordenador procura 
no perder de vista a criana, mesmo quando o assunto gira em torno das dificuldades 
pessoais dos componentes do grupo. 
O enfoque maior , geralmente, colocado sobre a dinmica familiar e o papel dos pais e 
crianas inseridos nesta 
dinmica. 
A atitude do psiclogo  ativa e participante, o que se 
justifica pela brevidade do tempo disponvel e pelos objetivos propostos. 
De modo geral podemos resumir os valores que norteiam a atitude do coordenador de GE 
nos seguintes pontos: 
71 



a) prefere o pragmatismo, a parcimnia e a interveno menos radical; 
b) mantm uma perspectiva de desenvolvimento na qual mudanas psicolgicas 
significativas so vistas como inevitveis; 
c) enfatiza as foras e os recursos do cliente. Os problemas que este apresenta so 
considerados seriamente, apesar de no necessariamente com o significado aparente; 
d) procura entrar ao mximo no contexto do cliente; 
e) aceita que muitas mudanas ocorrero ps-grupo e no sero observveis ao 
psiclogo; 
f) v o atendimento psicolgico como algo s vezes til e s vezes desnecessrio ou 
mesmo nocivo; 
g) procura compartilhar suas impresses e compreenso do caso com o cliente, tornando-o 
um co- observador participante; 
h) v o estar no mundo como mais importante do que estar em atendimento psicolgico. 
5. AVALIAO DOS GE 
Relataremos, inicialmente, o procedimento utilizado para a obteno das categorias de 
avaliao dos GE, tendo em vista a grande flexibilidade dos mesmos quanto ao nmero de 
participantes, critrios de montagem e nmero de sesses. 
Conduzimos uma pesquisa em que analisamos a experincia com GE, realizada por 
diferentes psiclogos a fim de captar como se desenvolviam estes grupos e se seus 
objetivos estavam sendo atingidos. 
Nosso escopo foi o de sistematizar a experincia a fim de permitir sua reproduo em 
outras condies que no as da instituio em que os GE foram criados, tornando-se assim 
uma prtica til que atenda tanto as necessidades das instituies que a utilizarem, quanto 
 populao que for atendida nestes moldes. 
A anlise que fizemos baseou-se em uma entrevista livre com os diferentes psiclogos que 
atuaram nos GE, com 
72 



a finalidade de captar suas vivncias durante a conduo dos mesmos. 
Concomitantemente analisamos os relatos de 29 GE realizados entre 1979 e 1981. 
A partir da leitura destes relatos percebemos algumas constantes no decorrer dos grupos, o 
que nos permitiu elaborar uma lista de aspectos relevantes e sistematiz-los em forma de 
perguntas para que os psiclogos as respondessem. Deste modo, atravs de uma 
entrevista dirigida validamos nossa impresso de que certos fatos eram significativos no 
processo dos GE, de modo que fosse possvel estruturar e validar esta nova modalidade de 
atendimento psicolgico. 
Obtidas as entrevistas com os coordenadores dos GE, analisando-as e comparando-as, 
obtivemos uma lista de categorias (Quadro 1), que nos permitiu uma formulao mais 
correta e um melhor entendimento do que ocorre nos GE, na medida em que foi possvel 
sintetizar as expresses de significao das entrevistas em uma nica descrio ampla. 
Esta descrio foi considerada por nossos entrevistados como representativa de seu 
pensamento e a lista de categorias como um roteiro de anlises e avaliao do 
desenvolvimento dos GE. 
QUADRO 1 
CATEGORIAS PARA ANLISE DOS GE 
A. Quanto ao cliente: 
1. Representao e evoluo do grupo 
a) depositrio do problema; queixa; 
b) local para obter respostas; 
c) local de encontro e momento pessoal; troca de impresses, conselhos e sugestes; 
d) local de ajuda; mudana de perspectiva. 
2. Relacionamento entre os membros do Grupo 
a) identificao e apoio; 
b) reconhecimento por semelhana e oposio. 
73 



3. Comunicao no Grupo 
a) radial; 
b) entre os elementos do grupo. 
4. Relacionamento entre cliente e psiclogo 
a) relao de dependncia;
b) colaborao.
5. Representao de si 
a) desorientao; 
1. busca de justificativas externas; 
2. representantes e/ou vtimas dos filhos; 
b) percepo das prprias dificuldades;
1. culpa; 
2. percepo da dinmica familiar; 
c) percepo de como podem ajudar os filhos.
6. Representao dos filhos 
a) criana como nica culpada; 
1. ambivalncia entre aspectos positivos e negativos da criana; 
b) viso fragmentada do filho; 
c) viso mais ampla do filho; 
1. percepo do filho inserido no contexto familiar.
B. Quanto ao psiclogo: 
1. Linguagem 
a) centrada na linguagem do cliente; 
b) linguagem verbal e no-verbal. 
2. Tipos de interveno 
a) explorativa; 
b) de esclarecimento ou informativa; 
c) compreensiva; 
d) interpretativa; 
e) colocaes pessoais. 
3. Objetivos atingidos 
a) vnculo com a instituio; papel do psiclogo; 
b) esclarecer o que  um servio de psicologia, por quais etapas passa o atendimento e 
como este se processa; 
c) trabalho de pr-diagnstico e pedido de exames especficos; 
d) encaminhamento mais adequado;
74 



e) compreenso da dinmica familiar; 
f) melhor compreenso quanto necessidade do atendimento: sensibilizao para futuros 
atendimentos; 
g) mobilizao dos aspectos positivos da criana e busca de uma atitude mais ativa dos 
pais diante das 
dificuldades dos filhos e do processo; 
h) diminuio da ansiedade dos pais; 
i) diminuio acentuada da lista de espera. 
6. DESENVOLVIMENTO DOS GE 
Como podemos verificar pelas categorias apresentadas, no seu transcorrer o GE passa por 
diferentes momentos. 
6.1. Quanto ao cliente 
a) Representao e evoluo do grupo. O primeiro momento, do qual  bem caracterstica a 
sesso inicial, constitui-se basicamente pela colocao das queixas que muitas vezes 
mascaram outras dificuldades mais difceis de ser colocadas, ou das quais os pais no tm 
conscincia. 
Outra caracterstica desta primeira etapa  a busca de respostas imediatas que possam 
solucionar a dificuldade, apresentando-se assim, a clnica, como algo semelhante a um 
consultrio mdico de onde o cliente pode sair com um remdio ou uma receita a ser 
seguida. Nesta fase, alguns pais encontram dificuldades em aceitar as limitaes da 
instituio, no entendem o que  o grupo e tambm no tm muito claro o que esperam do 
trabalho que se inicia. 
Num segundo momento, o grupo que, era visto como um mero depositrio de problemas e 
onde muitas vezes os pais sentiam que ali estavam para guardar lugar, passa a ser 
percebido de modo diferente. Os pais passam a senti-lo como um lugar de encontro e 
momento pessoal, onde  possvel falar de seus problemas e onde tomam conscincia de 
que esto participando de um processo no qual tm voz ativa. Percebem tambm que 
muitas das respostas que buscavam esto com eles e percebem novos ngulos do caso de 
seu filho, ao conversarem sobre o mesmo junto com os outros pais e ao ouvirem outros 
casos. 
75 



Neste ponto os pais passam a perceber que o GE os encaminha para a elaborao dos 
dados que possuem a respeito do filho, auxiliando-os na compreenso do mesmo. Este 
momento  considerado como crtico para o desenrolar do grupo, porque ao perceberem as 
dificuldades a serem enfrentadas, se os pais no se colocarem como colaboradores no 
trabalho, o desenvolvimento do grupo estaciona. Se h uma aceitao, o grupo se 
desenvolve e os pais passam a buscar um auxlio mais verdadeiro. Sentem que foram 
atendidos e mobilizam-se para buscar os meios de modificar a situao em que se 
encontram. O final do GE fica claramente como o encerramento de uma etapa. 
Os pais passam a perceber a necessidade do atendimento, demonstrando a compreenso 
do processo por que passaram e solicitando uma continuidade: diagnstico, terapia ou 
orientao. 
b) Relacionamento entre os membros do grupo. Entre os membros do grupo, o 
relacionamento se d por identificao e apoio aos sentimentos decorrentes do papel dos 
pais, das queixas e da dinmica familiar, ou de reconhecimento por semelhana ou 
oposio atravs da comparao entre a problemtica dos filhos. 
c) Comunicao no grupo e relacionamento cliente-psiclogo. A comunicao no GE se faz, 
de incio, de uma forma que pode ser chamada radial, ou seja, dos clientes para o 
psiclogo, caracterizando-se uma relao de dependncia em que o coordenador  visto 
como onipotente e autoritrio, e os clientes passivos e dependentes com pouca confiana 
nas prprias iniciativas. 
No decorrer das sesses a comunicao vai se modif icando. Os elementos do grupo fazem 
suas colocaes integradas no contexto de um assunto geral, cada participante ouve o que 
o outro diz, e completa ou emite sua opinio. Estabelecem-se relaes de amizade no 
decorrer do grupo, tentativas de ajuda e compreenso em relao aos problemas dos 
outros. 
Estas trocas permitem que haja um benefcio para os pais, atravs da possibilidade de 
deixar emergir suas fanta-
76 


sias e conflitos em relao ao problema do filho, e suas dvidas em relao  prpria 
atuao. 
Mais tarde o relacionamento com o psiclogo se modifica para um relacionamento 
colaborativo, momento em que os pais percebem que o coordenador no decide, nem  o 
detentor do conhecimento e das solues, mas que devem pensar juntos para chegar a 
uma compreenso do caso que trouxeram. 
d) Representao de si. Os pais no inicio do grupo apresentam-se desorientados, sem 
entenderem por que esto ali, atribuindo as queixas ou sintomas a causas externas a eles e 
a seus filhos. Colocam-se na maioria dos casos como representantes ou vtimas dos filhos. 
Com a participao no GE, passam por um perodo de expresso de sentimentos de culpa 
e depresso, em que atribuem o problema da criana ao mau desempenho do papel de 
pais. 
Passam a vivenciar suas fantasias ligadas aos sintomas, e, trabalhadas estas fantasias 
(mais no sentido de clarific -las) comeam a tomar conscincia le caractersticas pessoais 
que esto atuando no comportamento da criana. 
Sentem que esto envolvidos na queixa e percebem sua importncia no processo, 
aproximando-se de uma viso mais realista do filho e de si prprios. Isto  percebido pela 
modificao no teor das perguntas que fazem, pela maior seriedade na participao e pela 
percepo de suas prprias dificuldades, o que os leva freqentemente a buscar terapia 
para si. 
e) Representao dos filhos. A criana  vista no incio do grupo como inica culpada, sendo 
colocada apenas nela toda a responsabilidade. Suas dificuldades so vistas de forma 
fragmentada, isto , um dos sintomas assume posio de maior importncia e o restante 
das dificuldades  visto como decorrente deste sintoma. Com o tempo deixam de procurar 
apenas uma causa que justifique este ltimo e a criana passa a ser vista como um todo, 
em que o sintoma  um fragmento de seu comportamento. Neste momento, ao invs de 
buscar um remdio passam a compre-
77 
ender que as crianas tm suas limitaes sendo a responsabilidade dividida pelos 
membros da fami lia, deslocando-se, portanto, o foco do problema. 
6.2. Quanto ao psiclogo 
Linguagem. A linguagem do psiclogo  a mais prxima possvel da dos pais, com a 
utilizao de exemplos concretos para que se torne sempre explcito na sua comunicao. 
O psiclogo permanece atento aos sinais no verbais na comunicao. 
Tipos de Interveno. As intervenes que o psiclogo faz so de incio basicamente 
exploratrias, na medida em que procuram entender melhor os dados e os problemas. No 
desenvolvimento do grupo, outras formas de interveno surgem: 
a) informativa (ou didtica) na medida em que d explicaes sobre o trabalho feito 
posteriormente, e em que situa os pais num processo, ou esclarece pontos que so trazidos 
de modo obscuro; 
b) compreensiva, quando h maior abertura dos pais e quando trazem mais vivncias 
pessoais; 
c) interpretativa, na tentativa de levar os pais a um maior conhecimento de si e melhor 
elaborao dos problemas trazidos; 
d) colocaes pessoais, visando diminuir a distncia entre pais e psiclogo, procurando 
mostrar que o psiclogo no  o detentor do saber e buscando que os pais se assumam 
como indivduos participantes do processo. 
Objetivos atingidos. No decorrer do grupo, o psiclogo procura trabalhar o vnculo com a 
instituio, ou seja, busca que os pais obtenham o entendimento de todo um processo de 
atendimento psicolgico, passando a perceber mais claramente o que o psiclogo, o grupo 
e a instituio podem fazer por eles. 
78 



Ao trabalhar o vnculo com a instituio o papel do psiclogo  abordado, delimitando-se  
rea de atuao possvel do mesmo diante do caso, e remetendo a criana a outros 
profissionais para atendimento dos aspectos que lhes dizem respeito. 
O psiclogo procura centralizar as informaes referentes  criana, a fim de ter uma 
compreenso global do caso, para decidir sobre o melhor atendimento possvel. Procura 
selecionar os casos de atendimento mais urgente e encaminhar para fora mais 
adequadamente. O GE serve de suporte aos pais, que encaminhados nele aguardam a 
chamada de nova instituio. 
A participao dos pais no GE fornece ao psiclogo informaes sobre a dinmica familiar, 
dinmica dos pais e a situao da criana. Estes dados constituem-se num pr-diagnstico, 
o que vem a facilitar o psicodiagnstico posterior. 
Nas diferentes etapas do desenvolvimento do GE, podemos verificar que so atingidos os 
objetivos relativos  sensibilizao do cliente e  compreenso das dificuldades das 
crianas por parte de seus pais. Por outro lado, por permitirem um atendimento grupal e um 
encaminhamento adequado, os GE tm contribudo para sensvel diminuio da lista de 
espera na instituio onde foram criados. 
Embora os GE tenham momentos teraputicos, no so grupos teraputicos por no 
trabalharem os aspectos mais profundos dos pais, visto que o foco permanece sobre a 
criana. So grupos que se situam entre um grupo de queixas, um grupo de orientao e 
um grupo diagnstico, sendo que o tempo de durao dos GE influencia na sua 
caracterizao. 
Um grupo de 3 a 4 sesses caracteriza-se mais como um grupo de triagem, enquanto que 
um grupo mais longo (7 a 9 sesses) permite que outros aspectos sejam trabalhados, 
dirigindo-se mais para um grupo de orientao ou um grupo de diagnstico. 
79 



7. NATUREZA DOS GE 
A atipicidade da natureza dos GE inicia-se pela prpria 
escolha do nome. Por que chamar de espera um trabalho que na realidade j  um 
processo de atendimento? 
A escolha do nome deveu-se ao fato de estarmos pensando nas crianas que aguardam o 
psicodiagnstico. No entanto, os GE caracterizam-se por atender os pais destas crianas, 
os quais a partir de sua introduo no grupo passam a ser os clientes em atendimento. 
Caberia neste momento fazer um paralelo com o processo psicodiagnstico, em que os 
pais vm  clnica psicolgica a fim de pedir ajuda para seus filhos. Neste caso os pais 
seriam nossos clientes? 
7.1. GE e psicodiagnstieo 
Reportando-nos a Ocampo (1976) veremos que esta autora, ao tratar do processo 
psicodiagnstico, embora no mencione especificamente os pais como sujeitos do 
atendimento psicolgico, deixa claro que no decorrer das entrevistas com os mesmos, 
muitos de seus aspectos subjetivos vm  tona, devendo ser compreendidos e algumas 
vezes apontados, j que considera, e ns concordamos, que a criana  . - - emergente de 
um grupo familiar (Ocampo, 1976, p. 28). Mais adiante, a mesma autora cita que 
..  til averiguar desde o incio que fantasias, concepo de vida, de sade e de doena 
os pais tem (...). O conhecimento destes esquemas rei erenciais permite compreender 
melhor o caso e evitar a emergncia de ansiedade (...) e permite ao psiclogo estabelecer 
se os prprias pais necessitaro de assistncia ou no. . . (Ocampo, 1976, pp. 40-41). 
Na medida em que os GE tm como um de seus objetivos obter um pr-diagnstico da 
criana, verificamos que um dos aspectos destes grupos seria ser a primeira etapa de um 
psicodiagnstico, em que o enfoque maior estaria sobre os pais. 
Tendo estabelecido, portanto, que os pais so nossos clientes e que suas experincias, 
ansiedades e fantasias, mui-
80


 
tas vezes sero apontadas, cabe-nos indagar se os GE seriam grupos teraputicos. 
7.2. GE e grupos teraputicos 
Verificamos atravs da descrio do GE que no decorrer do processo a nfase que no 
incio os pais colocavam sobre as crianas passa gradativamente para eles prprios, 
momento em que seus aspectos subjetivos so mobilizados. 
Neste sentido, acreditamos, concordes com os psiclogos entrevistados, que de algum 
modo os GE so teraputicos. No entanto, se considerarmos a psicoterapia de grupo, como 
tendo por objetivo 
...provocar mudanas relativamente permanentes na estrutura intrapsquica da 
personalidade dos pacientes (Guinott, 1974, p. 170), 
veremos que os GE no se caracterizam como tal. Isto se deve, principalmente,  atuao 
dos coordenadores que no trabalham os conflitos intrapsquicos subjacentes, mas os 
padres dirios de ajustamento do cliente e sua famlia, buscando promover mudana de 
atitudes, seja em relao a eles prprios, seja em relao a seus filhos. 
Neste sentido, os aspectos teraputicos dos GE se aproximariam mais do que acontece 
nos grupos de Terapia Breve. 
7.3. GE e terapia breve (TB) 
Segundo Fiorini (1981), um conceito bsico da TB  considerar que 
O homem depende diretamente do seu ambiente dirio, comum, para seu 
funcionamento normal. Pretende-se, portanto, uma compreenso psicodinmica da vida 
cotidiana do paciente, que se instrumenta nas interpretaes, na planificao de sua vida 
diria, na orientao familiar ou do trabalho. (p. 23). 
A compreenso da vida cotidiana do cliente compreenderia os vnculos interpessoais, as 
condies de habitao, trabalho, seu grupo social e cultural e perspectivas de futuro. 
81 



A fim de atingir os objetivos a que se prope, a TB adota o princpio da flexibilidade 
(Fiorini, 1981, p. 26), que permite ao terapeuta grande elasticidade, de modo que possa 
utilizar-se de ampla gama de recursos a fim de intervir na capacidade de organizao de 
seus clientes, facilitando seu ajustamento s condies da realidade em que vive. 
A maior diferena entre TB e GE reside no fato de que na TB o enfoque permanece sobre o 
cliente do grupo, enquanto que no GE pretende favorecer, por parte dos pais, a 
compreenso do sentido das dificuldades e sintomas de seus filhos, orientando-os para 
uma manipulao mais controlada de suas ansiedades em relao a estes, e para a 
elaborao de novos modos de ajustamento interpessoal na famlia. 
Assim como o terapeuta nos grupos de TB, o coordenador dos GE desempenha um papel 
essencialmente ativo, no se limitando ao material fornecido pelo cliente, mas tambm 
explorando, interrogando e introduzindo suas percepes para confrontao com o mesmo. 
Enquanto na TB o psiclogo orienta suas sesses tendo em mente um foco, ou seja a 
interpretao central sobre a qual est baseado todo o tratamento (Fiorini, 1981, p. 32), o 
coordenador dos GE tem por foco os filhos dos pais em atendimento e as relaes entre 
estes e aqueles. Assim, nos GE o coordenador deve encaminhar os pais para este foco, por 
meio de intervenes ou interpretaes parciais e ateno seletiva, o que o obriga, como 
no caso das TB, a relegar para segundo plano  material atraente, inclusive tentador, 
sempre que o mesmo venha a ser irrelevante ou afastado do foco (Fiorini, 1981, p. 32). 
Tendo as crianas por foco, podemos considerar, outrossim, que muito da natureza dos 
Grupos de Orientao 
est presente nos GE. 
7.4. GE e grupos de orientao (GO) 
Retomando Guinott (1974, p. 71) veremos que os GO pretendem melhorar o 
funcionamento cotidiano dos pais em relao a seus filhos. Este propsito  alcanado, 
sensibili-
82


 
zanando os pais para os sentimentos das crianas e promovendo a compreenso do 
significado latente do comportamento infantil. Mes e pais so auxiliados a compreender a 
dimica das relaes pais-filhos e os fatos bsicos do desenvolvimento da criana e suas 
necessidades. 
Realmente estes objetivos dos GO, esto presentes nos GE que, por sua vez, envolvem 
ainda outro aspecto. 
7.5. Aspecto social dos GE 
Um aspecto que ainda no abordamos e que acreditamos que faz parte da natureza dos 
GE  o aspecto social num sentido amplo, e que est estreitamente ligado s 
caractersticas da populao que tem participado dos GE. 
A submisso imposta pelos servios de sade da comunidade, as informaes incompletas 
e aceitas, os papis do homem e da mulher na nossa sociedade, a posio dos pais diante 
dos professores, psiclogos e do prprio GE so freqentemente questionados e 
discutidos. Deste modo, abre-se aos participantes uma perspectiva de reflexo crtica e 
tomada de posio mais ativa. 
7.6. Concluso quanto  natureza dos GE 
Levantados todos estes pontos, verificamos que embora os GE tenham aspectos em 
comum com o psicodiagnstico, TB e CO, no se confundem com estas modalidades de 
atendimento no seu sentido estrito, j que possuem caractersticas especficas, embora 
facilitem o diagnstico, possuam momentos teraputicos e orientem os pais em vrios 
sentidos. 
Como grupos de preparao ou de passagem, do ponto de vista do atendimento 
psicolgico, os GE podem levantar hipteses diagnsticas e situar em que nvel esto as dif 
iculdades e quais as implicaes para os envolvidos nas mesmas, mas no vo possibilitar 
que se trabalhe a fundo estes aspectos. Isto implica que embora os GE tenham sido 
previstos para trabalhar com a espera para o atendimento dos filhos, mobilizando os 
problemas pessoais dos pais, podem 
83 



predisp-lo para atendimento prprio se for o caso. Este aspecto reporta-nos aos grupos de 
Kornblit e Rascovsky (1970) e Rosemberg (Larrabure, 1982), anteriormente citados, 
mostrando-nos que os GE, como os concebemos, podem ser teis para a aplicao em 
situaes semelhantes, abrangendo o trabalho com os pais e seus filhos. 
Acreditamos, portanto, poder resumir a natureza dos GE como sendo: grupos de 
sensibilizao para atendimento psicolgico e facilitadores de contato com a vida 
intrapsquica dos pais e de seus filhos. Ou seja, so grupos que iniciam um processo de 
conscientizao e sensibilizao para que os pais vislumbrem o tipo de relao que h 
entre eles e seus filhos, como esto envolvidos com o problema e que espcie de ajuda 
podem obter com o atendimento psicolgico. 
8. CONCLUSO 
Pelo que foi exposto, podemos claramente afirmar que os GE tm uma natureza prpria 
que os diferencia de outros tipos de atendimento psicolgico; apresentam uma seqncia 
evolutiva caracterstica que leva  consecuo de seus objetivos. 
Os GE contribuem de forma efetiva para se chegar a uma soluo diante do problema da 
excessiva demanda de clientes, problema crnico das instituies de atendimento gratuito. 
Constituem-se num modelo til de atendimento psicolgico, passvel de ser utilizado em 
situaes semelhantes, em outras instituies e sob a. coordenao de diferentes 
psiclogos. 
Por outro lado, trata-se de um tipo de atendimento eficaz, j que, de acordo com seus 
objetivos, sensibilizam e preparam os pais para o atendimento psicolgico de seus filhos. 
Alm disso despertam para a dimenso psicolgica indivduos que nunca pensaram neste 
aspecto. 
Partindo dos GE, como os concebemos, podemos utiliz-los em centros comunitrios como 
postos de sade, por exemplo, onde podero constituir-se, na sua forma mais 
84 



abreviada, em grupos teis para uma triagem mais efetiva, ou na forma mais extensa para 
a elucidao dos pais sobre problemas focais de seus filhos. 
Ao elucidarmos os pais que participam dos GE sobre 
o que  um servio psicolgico, estaremos sem dvida iniciando um processo de 
esclarecimento para uma populao com pouca informao neste campo. Acreditamos que 
estes conhecimentos, adquiridos nos GE, sero passados aos familiares, amigos e 
conhecidos de nossos clientes. Neste sentido, pensamos estar formando o primeiro elo de 
uma cadeia, que a longo prazo poder chegar a ter alguma significao social. 
REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS 
ANCONA LOPEZ, M. Consideraes sobre o atendimento fornecido 
por clnicas-escola de psicologia. Arquivos Brasileiros de Psicologia. Rio de Janeiro, 35 (2): 
1983. 
BLEGER, J. Psychoanalysis of Psychoanalitical Frame. Int. J. Psycho-Anal. USA, 48, 1967. 
FIORINI, H. J. Teoria e Tcnica de Psicoterapias. 4a ed., Rio de Janeiro, Francisco Alves, 
1981. 
GRUPO DE ESPERA. Uma Perspectiva Institucional de Atendimento Imediato ao 
Adolescente. Resumo do Trabalho Apresentado no IV Congresso Brasileiro de Grupo, Rio 
de Janeiro, junho de 1979. Gradiva, Foro de Debates Psicodinmicos, Rio de Janeiro, 1, 
outubro, 1979. 
GUINOTT, H. G. Psicoterapia de Grupos com Crianas. Belo Horizonte, Interlivros, 1974. 
KORCHIN, S. Jr. Modern Clinicai Psychology Principies in the Ciinic and Community. New 
York, Basic Books, 1976. 
KORNBLIT, A. & RASCOVSKY, A. Importancia Institucional de Los Llamados Grupos de 
Espera. Revista Argentina de Psiquiatria y Psicologia de la Infancia y de la Adolescncia, 
SAPPIA, Buenos Aires, 1 (1): 55-60, mayo, 1970. 
LARRABURE, 5. A. L. Entrevista com a Dra Rachei Rosemberg. So 
Paulo, 1982. (gravada em fita cassete) 
OCAMPO, M. L. S. de, ARZENO, M. G. e colaboradores. Las Tecnicas 
Proyectivas y ei Proceso Psicodiagnstico. 4- ed., Buenos Aires, 
Nueva Visin, 1976. 
ROGERS, C. R. & DYMOND, R. F. Psychoterapy and Personaiity 
Change. Chicago, The University of Chicago Press, 1954. 
85 



UMA MODALIDADE DE ATENDIMENTO... 
Mary Dolores Ewerton Santiago 
Sonia Regina Jubelini 
Uma reflexo sobre o atendimento psicolgico em instituio levou-nos a procurar outras 
formas de trabalho que pudessem ser mais condizentes com as necessidades dos clientes 
e com as limitaes das prprias instituies. 
A insatisfao quanto ao trabalho at ento realizado relacionava-se  grande fila de 
espera para o atendimento psicolgico, e, portanto, ao prazo de tempo muito longo entre a 
inscrio do cliente na instituio e o incio de seu atendimento, o que acarretava, entre 
outros, o desenvolvimento progressivo de suas dificuldades, de tal forma que a instituio j 
no poderia mais prestar ao cliente o tipo de ajuda psicolgica que dele necessitava. Isto , 
o cliente foi considerado elegvel para o atendimento na instituio rio momento de sua 
inscrio mas poderia deixar de s-lo tempos depois, em funo da idade e da patologia 
que apresen tava. 
Constatamos tambm que um dos fatores que contribuam para a configurao desta 
situao estava relaciona- 
86 



do aos modelos de atendimento psicolgico utilizados pelo psiclogo, que eram 
semelhantes queles adotados em consultrio particular e que no levavam em 
considerao nem as peculiaridades dos clientes que procuravam a instituio (nvel scio-
econmico e cultural restrito) nem aquelas relativas  prpria instituio (atendimento de 
grande nmero de clientes num tempo limitado). A negao destes aspectos, por parte do 
psiclogo, impedia-o de questionar, como se torna necessrio na prtica clnica, os 
problemas que permeiam seu trabalho. Conseqentemente, no buscava modelos 
alternativos de atuao em Psicologia Clnica, assim como se via impossibilitado de realizar 
um trabalho de carter preventivo. 
Estas consideraes so resultantes das nossas experincias em instituies, sendo que a 
mais importante para as nossas reformulaes foi aquela relacionada  Clnica-escola. 3 
Supomos, no entanto, que os problemas aqui levantados no se restringem a uma 
instituio de ensino e atendimento: a carncia de recursos  geral nas instituies que 
prestam servios na rea de Sade Mental. Dai a importncia de se incluir, nos cursos de 
formao de psiclogos, a problemtica do trabalho institucional, assim como desenvolver, 
junto aos alunos, tcnicas que lhe permitam o atendimento adequado de grande nmero de 
clientes, tal como se faz necessrio nas instituies. 
Pareceu-nos que a maior presso interna nas instituies  realizar um diagnstico 
psicolgico do cliente, o que nos levou a desenvolver tcnicas de atendimentos grupais a 
fim de responder  esta demanda. 
A pesquisa de material bibliogrfico evidenciou o escasso conhecimento sobre o tema. 
Apenas dois trabalhos, que no chegaram a ser publicados mas apenas mimeografados 
para uso interno das instituies em que foram desenvolvidos, relatavam experincias 
sobre o diagnstico psicolgico em grupo. Um deles foi realizado no Centro de Sade 1 de 
Vila Prudente, Penha de Frana e Vila Maria, sob o t-
87 



tulo: Das dimenses da sade mental em trs distritos sanitrios da cidade de S. Paulo 
(Jacobik, A. S.; Reino, A. R.; Silva, E. M. M.; Luchesi, C. C. Shirakawa, A.; Tudeila, E. G. C.; 
Silva, E. S. s.d.). O outro, desenvolvido na Faculdade de Medicina da USP, intitula-se: 
Grupo diagnstico  perspectiva de sua utilizao em um programa de sade mental 
(Fontes, M. H. S.; Barbosa, L. H. S.). O primeiro deles, realizado por uma equipe 
multidisciplinar, mostrava a preocupao dos autores em atender o maior nmero de 
clientes e coletar dados que lhes permitissem saber se o caso era elegvel para aquela 
instituio. Desta forma, pareceu-nos que o objetivo do trabalho era realizar uma triagem e 
no um diagnstico psicolgico, mesmo porque a apresentao dos resultados obtidos 
dizia respeito mais a aspectos burocrticos do funcionamento da Instituio, excluindo uma 
anlise da tcnica e mtodo adotados. O trabalho do psiclogo era restrito ao atendimento 
de crianas em apenas uma sesso ldica grupal. Observamos, no segundo trabalho, uma 
preocupao em realizar um diagnstico psicolgico da criana. H referncias s tcnicas 
utilizadas: anamnese, hora ldica em grupo e testes grficos. No entanto, os pais s eram 
includos no processo de psicodiagnstico como informantes do histrico de vida da criana 
e as tcnicas grupais eram utilizadas somente com o objetivo de atender o maior nmero 
de pessoas num curto prazo de tempo. 
1. CARACTERSTICAS DO MODELO ADOTADO 
O modelo de diagnstico psicolgico em grupo por ns adotado difere daqueles acima 
referidos. Supomos que: 
a) prescindindo da entrevista com os pais, o psiclogo no tem a oportunidade de investigar 
e conhecer o funcionamento familiar no qual a criana est insenda; 
b) o desconhecimento deste micromundo social da criana, que  basicamente sua famlia, 
tende a considerar a criana como imune s foras ambientais que possam atuar nela 
durante o seu desenvolvimento; 
88 



c) a desconsiderao do grupo familiar no permite avaliar ou supor o interjogo de relaes 
e papis 
existentes no mesmo; 
d) a conseqncia da marginalizao dos pais no processo de psicodiagnstico , muitas 
vezes, a concluso errnea de que, ou a criana, ou a famlia,  o doente. A 
desvinculao pais-filhos, implica a negao das complexas relaes que existem entre os 
sintomas que a criana apresenta, a estrutura e a dinmica familiar. 
Partimos do pressuposto de que  absolutamente importante para o psicodiagnstico da 
criana o conhecimento de seu grupo familiar, ainda que somente um dos seus 
representantes comparea normalmente  clnica. A participao deste elemento num 
grupo de iguais (me ou pai cujos filhos esto em processo de psicodiagnstico) favorece a 
expresso de suas queixas, fantasias e expectativas com relao ao filho, assim como a 
reproduo de suas formas de vinculao com o mundo. 
Os atendimentos grupais, segundo nosso ponto de vista, transcendem ao objetivo unico de 
atender um maior nmero de pessoas num curto prazo de tempo, uma vez que oferecem 
um conhecimento que vai alm das informaes fornecidas pelos pais sobre seus filhos. Os 
atendimentos grupais possibilitam e ampliam o conhecimento de cada cliente e sua 
problemtica, uma vez que ele, em seu discurso, sua forma de interagir com os demais 
participantes do grupo e com a tarefa proposta pelo psiclogo, pe em evidncia aspectos 
significativos de sua personalidade. Neste sentido, no trabalho de diagnstico psicolgico 
em grupo, observamos e pesquisamos particularmente trs tipos de vnculos: 
a) vnculos do indivduo com o grupo;
b) vnculos do indivduo com a tarefa; 
c) vnculos do grupo com a tarefa. 
Isto porque, focalizando somente a tarefa, obteremos as comunicaes, interaes e 
papis que os diversos membros do grupo assumem, mas no conheceremos suas 
ansiedades, fantasias e seus processos de identificao se no analisarmos o grupo em 
sua totalidade. 
89 


 possvel, ento, a leitura psicolgica de cada pessoa do grupo em trs nveis: 
a) nvel interpessoal: cada elemento  ele mesmo, o que supe, portanto, identidades; 
b) nvel interativo: cada elemento  um papel que desempenha diante da tarefa; 
c) nvel inconsciente: cada elemento  significante ou depositrio das fantasias e 
ansiedades dos outros. 
Se utilizarmos tal procedimento obteremos uma compreenso no s da demanda da me 
(que em geral se refere a uma soluo para o problema do filho) como dela prpria, na 
medida em que sua forma de participao no grupo revela caractersticas de sua 
personalidade. A relao entre estes dois aspectos nos permite levantar suposies sobre 
o tipo de vnculo existente entre me e filho e sobre o funcionamento familiar. Alm do 
mais,  sabido que as dificuldades dos pais se refletem nos filhos podendo mesmo 
bloquear seu processo de desenvolvimento, uma vez que a criana necessita de seus 
genitores para superar problemas normais e pertinentes ao seu momento evolutivo. Desta 
forma,  possvel tambm relacionar as dificuldades da me com as dificuldades da criana, 
o que se constitui num recurso a mais para a compreenso diagnstica da criana. 
Obviamente, o que os atendimentos grupais nos fornecem, so dados relevantes de um 
segmento de personalidade de cada um dos integrantes do grupo e de cada uma das 
crianas implicadas no processo psicodiagnstico. Entretanto, com estas, torna-se 
absolutamente necessrio a aplicao de tcnicas individuais que permitam uma 
compreenso mais ampla e mais profunda de suas dificuldades e recursos internos. 
Definimos o diagnstico psicolgico em grupo como um processo cuja finalidade  a 
compreenso da personalidade da criana e da situao que contribui para a expresso de 
uma sintomatologia especfica, considerando-se tambm a influncia cio grupo familiar. 
Por se tratar de uma proposta grupal, alguns critrios foram estabelecidos a fim de garantir 
a eficcia do trabalho. 
So eles: idade, sexo e possvel patologia. 
90 



Quanto  idade,  sabido que existem faixas etrias cujo desenvolvimento apresenta 
algumas caractersticas semelhantes quanto aos aspectos motor, emocional e cognitivo. 
Desta forma, seria possvel agrupar crianas de trs a cinco, cinco a sete, sete a nove, 
nove a onze anos de idade. 
No que se refere ao segundo critrio, sexo, optamos por grupos mistos por julg-los mais 
ricos na medida em que refletem mais a realidade. 
O terceiro critrio, possvel patologia, constituiu-se em categoria excludent, uma vez que 
no poderiam participar do diagnstico em grupo crianas das quais se suspeitava, pela 
triagem, de terem uma deficincia intelectual, agressividade acentuada, leses 
neurolgicas com crises convulsivas e psicose. Isto porque crianas que apresentam os 
tipos de problemas acima mencionados provocam situaes que geram alto grau de 
ansiedade no grupo, podendo mesmo lev-lo a uma intensa desorganizao. 
Inicialmente estes critrios foram aplicados somente ao grupo de crianas, mas a 
experincia mostrou a necessidade de que os mesmos fossem aplicados aos grupos de 
pais, principalmente porque o atendimento destes era exclusiva- mente em grupo. Assim, 
procuramos formar grupos cujos elementos no apresentassem grandes discrepncias com 
relao  idade e nvel scio-econmico-cultural, a fim de no acentuar as dificuldades nas 
interaes e identificaes. A possibilidade de formao de grupos mistos (pais e mes) 
resultou muito restrita, uma vez que, via de regra, eram as mes que acompanhavam os 
filhos  clnica, provavelmente porque o atendimento era feito em horrio comercial e, 
portanto, os pais estavam trabalhando. Tal fato tm-se modificado ultimamente, o que 
parece ser decorrente da situao scio-econmica em que vivemos. A freqncia de pais 
 clnica aumentou e sua justificativa relaciona-se ao fato de estarem desempregados e as 
mes, para garantirem a sobrevivncia familiar, empregam-se normalmente como faxinei-
91 



ras. Observamos que a presena de pelo menos um elemento masculino enriquece a 
dinmica grupal, o que no ocorre quando ele vem com a sua companheira. Nesta ltima 
situao, o casal forma um subgrupo com caractersticas bastante especficas de seu grupo 
familiar, acarretando dificuldades no manejo e coordenao do grupo como um todo. 
Quanto ao critrio patologia, seguimos os mesmos pressupostos relativos ao grupo de 
crianas, ainda que as informaes sobre os pais fossem muito restritas, uma vez que o 
foco de ateno, na entrevista de triagem,  a criana. Procuramos reunir pessoas com 
caractersticas diferentes, que permitissem maior mobilizao e inter-relacionamento. 
Apesar destas preocupaes quanto  formao do grupo, o no-comparecimento de 
alguns pode alterar o equilbrio desejado, inutilizando, algumas vezes, o trabalho desta 
seleo pormenorizada. Torna-se necessrio explicitar, na primeira entrevista grupal, que 
uma vez iniciado o atendimento me ou pai devem comparecer s entrevistas a fim de 
ajudarem na compreenso de seu filho e que, em hiptese alguma, podem se intercalar nas 
mesmas. 
2. PROCESSO DE ATENDIMENTO 
Passaremos a focalizar agora o processo de atendimento de pais e crianas no diagnstico 
psicolgico em grupo, 
conforme apresentado na Tabela 1. 
Na primeira entrevista so feitas as apresentaes e colocado o contrato, enfatizando que o 
grupo ser fechado uma vez que o trabalho diagnstico tem um tempo mnimo de durao, 
o que limitaria tanto as faltas como a introduo de novos elementos no grupo.  
explicitada tambm a forma de atendimento: as entrevistas com os pais sero sempre 
grupais e sua finalidade  obter uma compreenso do que est ocorrendo com seus filhos; 
as informaes sobre eles sero dadas durante o processo. Em seguida, os pais so 
inqiridos sobre o motivo que os levou a procurar a clnica. Aps a exposio de todos, 
inicia-se uma investigao para melhor esclarecimento da queixa individual. Atravs desta 
entrevista, procura-se entender os motivos mani-
92



TABELA 1

Esquema Seqncial de Atendimento

Sesses
Pais
Tempo

Crianas

Tempo
1 semana
1 entrevista grupal
lh30min








[ livre

45min
2 semana


Hora ldica grupal

[no padronizada
35min




dirigida







padronizada
50min
3semana
2 entrevista grupal
lh30min
Contatos individuais, entrevistas ou testes
50min
4 semana
3 entrevista grupal
lh30min
Contatos individuais, entrevistas ou testes
50min
5 semana
4 entrevista grupal
lh30min
Hora ldica grupal


1hl0min
6 semana
5 entrevista grupal
lh30min
Contatos individuais, entrevistas ou testes
50 min
7 semana
6 entrevista grupal
lh30min
Contatos individuais, entrevistas ou testes
50 min
8 semana
7 entrevista grupal
lh30min
Hora ldica grupal - devolutiva
1h10 min

93
 
festos, latentes e formular hipteses psicodiagnsticas. Ao finaliz-la,  entregue a cada 
responsvel um questionrio sobre a constelao familiar, o histrico de vida da criana e 
costumes da famlia, para ser preenchido em casa e trazido na segunda semana, quando 
as crianas devero iniciar seu atendimento. As respostas e a forma como o questionrio 
foi completado nos informam se os pais se ajudam, se solicitam ajuda de outros 
(professores, vizinhos, filhos mais velhos etc.), a quem delegam o conhecimento sobre seu 
filho, e, com isso, obtemos mais dados importantes sobre o funcionamento familiar. Todos 
os elementos at ento obtidos nos do condies de selecionarmos os aspectos 
relevantes de cada criana que precisam ser pesquisados. 
Na segunda semana, as crianas comparecem para uma atividade ldica grupal. 
Procuramos, ento, formular hipteses e correlacion-las com aquelas levantadas no 
atendimento dos pais. O material ldico constitui-se de uma sala em que h um quadro 
negro, giz, gua, papel, lpis grafite, de cor, de cera, tinta guache e a dedo, pincel, tesoura, 
borracha, apontador, famlia de bonecos, jogo de panelas, xcaras, talheres, massa de 
modelar, bola, barbante, cola, avies, carrinhos e alguns carros com carroaria. Cuidamos 
de que todas as crianas tenham material disponvel para expressarem-se principalmente 
no que diz respeito ao nmero de lpis e papel sulfite. Quanto aos outros materiais, esta 
regra no  observada; alguns brinquedos so em nmero menor do que o nmero de 
crianas no grupo, o que nos permite avaliar as reaes do grupo e de cada criana diante 
deste fato. Assim, podemos observar tanto o aparecimento de atitudes de cooperao 
como de competio ou negao. 
O grupo de crianas,  semelhana do grupo de pais, tambm se inicia com as 
apresentaes e questionamento, por parte do psiclogo, sobre o motivo de sua vinda  
clnica. Em casos de desconhecimento, cabe a opsiclogo explicitar, de forma geral, para 
as crianas, o motivo delas estarem ali. Nos atendimentos individuais este aspecto  
aprofundado. Durante quarenta e cinco minutos a atividade  livre, podendo, portanto, cada 
criana realizar aquilo que tiver vontade. O psiclogo deve estar atento s caracters-
94


 
ticas do grupo, tais como: forma de apresentao, comunicao e interao de cada 
criana e do grupo como um todo. Em seguida, inicia-se uma atividade semidirigida, com 
durao mdia de trinta e cinco minutos, cujo objetivo  perceber o contato social da 
criana quando ela  solicitada pelo psiclogo ou pelo grupo e avaliar funes como: 
ateno, concentrao, lateralidade, julgamento, compreenso de ordens complexas entre 
outras. Aps a atividade semidirigida, que estimula a interao grupal,  proposta uma 
atividade individual: execuo do teste HTP. No final, comunica-se a todos que os 
atendimentos sero tanto individuais quanto grupais, e que eles tero informaes da 
compreenso que obtivemos acerca deles, durante o processo. 
A escolha dos testes a serem aplicados em cada criana baseia-se nas hipteses 
diagnsticas formuladas no primeiro atendimento dos pais e crianas, O procedimento 
usual  incluir o teste do casal de Berstein, testes da Famlia Cintica, CAT-A e Bender. 
Quando necessrio, substituem-se estes por outras formas de investigao. 
Quanto ao grupo de pais, continuamos investigando o histrico de vida da criana, 
cuidando de assinalar alguns aspectos percebidos na sua relao com os filhos, utilizando 
para tal, muitas vezes, suas formas de interao com o grupo. Assim, as devolues 
ocorrem durante todo o processo e traduzem a compreenso do que est ocorrendo no s 
com a criana mas tambm com os pais. Desta forma,  possvel eles perceberem que 
muitas dificuldades dos filhos esto relacionadas s suas prprias atitudes. Os 
encaminhamentos so sugeridos quando se obtm as concluses diagnsticas, sendo 
acompanhados das explicaes necessrias. 
As crianas tambm recebem informaes devolutivas, mas estas incidem 
predominantemente nos ltimos atendimentos. Consideramos importante que as crianas 
recebam uma devoluo no s no atendimento individual mas tambm em grupo, ainda 
que no primeiro tenhamos mais possibilidades de transmitir a compreenso que tivemos 
sobre ela e sua problemtica especfica. 
95


 
3. ANLISE DA EXPERINCIA 
Faz-se necessria uma anlise desta experincia, que se iniciou no segundo semestre de 
1979. 
Referimo-nos anteriormente a um dos principais motivos que determinou a busca de outra 
modalidade de atendimento psicodiagnstico: o grande nmero de clientes que aguardava 
um diagnstico psicolgico e a demora da instituio em satisfazer esta demanda. 
Conclumos que, na medida em que foi possvel atender um maior nmero de clientes, 
tivemos tambm oportunidade de efetivar um trabalho preventivo, uma vez que a realizao 
do dignstico psicolgico permitiu os encaminhamentos necessrios, assim como uma 
interveno na problemtica do cliente antes que esta se agravasse demasiadamente. 
Este aspecto  muito importante dadas as limitaes do atendimento psicoteraputico nas 
instituies: estas, via de regra, no atendem clientes seriamente perturbados, que, na 
maioria das vezes, tm poucas possibilidades de tratamento, uma vez que recorrem  
instituio justamente por no poderem pagar um atendimento particular. 
Outras consideraes podem ser feitas a partir da nossa experincia. A mais importante 
delas relacionou-se ao prprio processo grupal que mobilizou, mais facilmente, os aspectos 
sadios de cada pessoa e adquiriu, portanto, um carter psicoprofiltico. As contribuies de 
cada elemento do grupo tornaram-se importantes na medida em que, compartilhando de 
uma mesma situao (so pais que tm filhos-problemas), puderam ajudar-se 
mutuamente e inter- cambiar suas experincias e vivncias. A participao em um grupo de 
iguais tambm pareceu diminuir o sentimento de fracasso das mes: perceberam que no 
eram as nicas que tinham filhos-problemas e diminuram as exigncias e as presses 
que exerciam sobre os mesmos. As conseqncias positivas advindas de tal fato 
relacionaram-se s mudanas de atitudes das mes para com os filhos, o que se constituiu 
em um efeito teraputico no processo de psicodiagnstico. A me pode estimar melhor, 
mais objetivamente, o grau de dificuldade do filho, o seu prprio e achar solues para o 
problema que antes parecia insolvel. 
96 



Convm salientar que nem sempre conseguimos esses resultados utilizando as tcnicas 
grupais no diagnstico psicolgico. Inicialmente o grupo depositava no psiclogo todas as 
suas expectativas quanto a compreenso e soluo para os problemas do filho, negando a 
ajuda que os demais elementos pudessem lhe oferecer. Principalmente na primeira 
entrevista grupal, os pais mostravam-se interessados apenas em expor suas queixas, no 
atentando para a dos demais. Houve necessidade de que o psiclogo assinalasse no 
somente as preocupaes comuns manifestadas por todos os elementos do grupo mas 
tambm as latentes, para que a dinmica at ento existente pudesse se modificar. Se o 
saber psicolgico delegado ao psiclogo for centralizado por este, os pais sentir-se-o 
impotentes para ajudar os filhos e tero dificuldades de refletir sobre suas prprias atitudes. 
Se, em troca, o psiclogo reconhecer o saber da me, esta ter uma melhor auto-imagem 
e poder descobrir recursos prprios que at ento imaginava no possuir. Isto requer uma 
atitude mais realstica do psiclogo, no sentido de admitir que seu saber  limitado e que 
as mes, ainda que tenham condies culturais inferiores s suas, podem fazer algo por si 
mesmas e por seus filhos. 
Ainda que o objetivo do diagnstico psicolgico em grupo seja a realizao de um 
diagnstico individual, consideramos importante no focalizar os pais como meros 
intermedirios entre os psiclogos e os filhos. As vivncias e interaes dos elementos de 
um grupo podem ampliar o conhecimento que cada um tem de si mesmo e mobilizar uma 
atitude reflexiva que , a nosso ver, de suma importncia para as reparaes que se fazem 
necessrias. 
A utilizao deste modelo alternativo respondeu s necessidades dos clientes e da 
instituio Clnica-escola. As tcnicas grupais utilizadas limitaram-se s entrevistas grupais 
e horas ldicas grupais. As primeiras tiveram um carter verbal, sendo que nossa clientela 
encontra dificuldades neste tipo de expresso. Ainda que tenhamos procurado utilizar uma 
linguagem acessvel a todos os elementos do grupo, no exclumos o fato desta tcnica ter 
suas limitaes. 
97 



Os resultados que obtivemos com este trabalho nem sempre foram satisfatrios, em razo: 
1. das prprias caractersticas do grupo; 
2. da utilizao somente de tcnicas verbais; 
3. das dificuldades do psiclogo na compreenso e manejo do grupo. 
Supomos que outros modelos podero ser criados, considerando-se as particularidades da 
instituio e as caractersticas da clientela a ser atendida. Acreditamos que um trabalho 
institucional, qualquer que seja seu carter,  um campo aberto  investigao, que deve 
ser explorado, tornando-se necessria, tambm, uma reflexo sobre a viabilidade das 
tcnicas adotadas, assim como uma avaliao dos resultados obtidos. 
REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS 
FONTES, M. H. S., BARBOSA, L. H. S. Grupo Diagnstico: perspectiva de sua utilizao 
em um programa de sade mental do Departamento de Medicina Preventiva da 
Universidade de So Paulo. (no publicado) 
JACOBIK, A. S. & outros. Execuo das atividades de sade mental em trs distritos 
sanitrios da cidade de So Paulo. (Trabalho no publicado; realizado nas reas 
experimentais de sade mental dos Centros de Sade 1 de Vila Prudente, Penha de 
Frana, Vila Maria). 
JUBELINI, S. R. Psicodiagnstico Grupal. Arquivos Brasileiros de 
Psicologia Aplicada. Rio de Janeiro, Fundao Getlio Vargas, 34 (2): abr.-jun., 1982. 
98 



GRUPO ESTRUTURADO DE VIVNCIA PARA PAIS 
Oara Varca Moreira da Silva 
O Grupo Estruturado de Vivncia est voltado para o atendimento aos pais de crianas 
encaminhadas para terapia, os quais, por sua vez, necessitam de um atendimento paralelo 
ao de seus filhos. 
Ao lhes ser indicada uma terapia, muitas vezes se constata que estes pais esto 
desmotivados para tal. Isto est vinculado a diversas razes, algumas j citadas nos 
captulos anteriores deste livro e outras, entre as quais, salienta-se: 
a) o fato de, via de regra, a indicao feita no estar em conformidade com o que foram 
buscar a princpio, isto , uma soluo apenas para o problema de seus filhos; 
b) os pais revelam normalmente uma percepo pouco clara da problemtica da criana; 
uma vez que esta  descrita sob a forma de sintomas e no a dificuldade em si (Larrabure, 
1982); 
c) os pais no percebem habitualmente a existncia de um vnculo entre a forma de ser de 
um indivduo e a dinmica das relaes por ele vividas. Muitas 
99 



vezes no lhes est clara a prpria indicao que receberam, sua real necessidade e 
conseqentemente o que seu contedo interno e a dinmica familiar tm a ver com as 
dificuldades da criana; 
d) Os pais se submetem a uma indicao feita pelo psicodiagnstico, que julgam ser 
obrigatria a eles, pois buscam o melhor para seus filhos. A terapia  vista comumente por 
esses pais, como forma de aliviarem-se da culpa que setem diante das dificuldades da 
criana. Sua atitude  passiva, frente ao processo teraputico, esperando que o psiclogo 
os julguem e lhes dem frmulas de como lidar com um filho problemtico; 
e) os pais apresentam um desconhecimento do trabalho realizado pelo psiclogo, o que via 
de regra conduz a um nvel de expectativa no-condizente com a realidade. Cria-se um 
vnculo teraputico, em que o psiclogo  o plo da relao do qual depende, inteiramente, 
o sucesso ou no do trabalho a ser desenvolvido. 
Em se tratando de populaes de baixa renda, esta situao se agrava, pois: 
a) no tm o hbito de abordar processos internos, estando muito mais voltados para a 
ao, dadas as condies adversas nas quais vivem; (Korchin, 1976); 
b) apresentam dificuldade de expresso e compreenso a nvel verbal, intensificada, 
quando o tema aborda tais processos internos, em funo de sua carncia cultural e 
quando em confronto com o discurso habitual do psiclogo (Minuchin, 1967); 
e) revelam-se pessoas conformistas que no acreditam na possibilidade de reformulao e 
na utilidade desta, bem como na busca de melhores condies pessoais tambm para si; 
d) possuem pequena disponibilidade de tempo, (Ancona Lopez, 1982); 
e) apresentam fundamentalmente um aumento da passividade diante de uma classe social 
dominante, representada pela figura do terapeuta. 
100 
Por estes aspectos, os resultados advindos dos servios prestados aos pais tm-se 
revelado anti-econmicos, tanto para o terapeuta quanto para o cliente, pois at que todos 
esses dados sejam trabalhados, haver necessidade de grande investimento de tempo e 
esforo, por parte dos dois p- los da relao teraputica. 
Ora,  do conhecimento dos profissionais que atuam nesta rea que apenas o fato dos 
filhos receberem atendimento psicoterpico tende a diminuir a ansiedade dos pais. Estes se 
vem mais aliviados por acreditarem que algum est resolvendo algo que os incomoda, 
atenuando assim os sintomas mais graves. Isto d a falsa impresso de resoluo dos 
conflitos existentes na dinmica familiar (Ancona Lopez, 1981). 
Por outro lado, sabemos da impossibilidade disto ocorrer de forma efetiva, quando os pais 
no esto sensibilizados para a prpria terapia e no participam do processo teraputico 
dos filhos. Caso no ocorra livre opo por parte do cliente a terapia no trar benefcios. 
Assim sendo, s a partir da percepo da necessidade da terapia e da compreenso do 
contedo e forma envolvidos no processo teraputico, em confronto com suas 
possibilidades internas atuais de reformulao, os clientes tero condies de decidir por 
passar ou no pelo processo. Portanto, apesar de ser feita uma indicao aos pais, no se 
tem o direito de obrig-los a segui-la. 
Observa-se, no entanto, que a forma como todos estes aspectos vm sendo trabalhados, 
para que se passe  terapia propriamente dita, com uma definio do cliente, quanto  sua 
participao no processo teraputico, tem tomado um tempo muito longo. 
Alm disso, constata-se uma ineficincia no atendimento institucional pois, considerando-se 
que este  realizado por tempo limitado, conseqentemente pressupe uma alta motivao 
por parte do cliente (Knobel, 1971), (Bellak e Small, 1980), (Kusnetzoff, 1980), (Malan, 
1981). Assim sendo, at que o mesmo esteja preparado para o trabalho teraputico em si, 
pouco tempo resta. Desta forma, sua evoluo teraputica permanece num nvel bastante 
superficial. 
101 



de grande importncia salientar que os pais que participam dos Grupos de Espera 
(Larrabure, cap. 4) se mostram mais sensibilizados para sua prpria terapia. Observam-se 
diferenas entre estes e os que s passaram pelo pro. cesso psicodiagnstico, realizado 
em sua forma clssica. 
Se, por um lado, existem estes dados referentes aos clientes, por outro, observa-se a 
necessidade de reformulao dos psiclogos, ao trabalharem com pais que tambm 
necessitam de uma terapia paralela  de seus filhos. 
As relaes do indivduo e da famlia so fundamentalmente complementares, no 
antagnicas; . . . as necessidades do indivduo e da famlia esto intimamente ligadas 
(Ackerman, 1970, p. 14). Diante disso, observa-se a necessidade de mudana das tcnicas 
utilizadas at ento, por terapeutas que apresentavam uma tendncia a trabalhar apenas 
com a criana, abordando de forma pouco eficiente os pais. Alguns procedimentos 
tcnicos de assepsia e distanciamento dos familiares eram (e so) usados muitas vezes 
indevidamente para dar cobertura s dificuldades dos terapeutas (Fonseca Filho e Vitale, 
1976, p. 9). 
Desta forma, no  raro os terapeutas acabarem por confirmar a posio de bode 
expiatrio, na qual, muitas vezes, as crianas so colocadas pelas famlias. Apenas fazem 
a indicao teraputica aos pais, sem ajud-los, efetivamente, para que estes percebam 
com clareza sua necessidade e sintam-se motivados para tal ou, tenham possibilidade de 
tomar uma deciso consciente de no passar pelo processo teraputico. Quando ocorre 
esta ltima alternativa, apenas as crianas so tratadas e, diante dos pais, o psiclogo se 
isenta da responsabilidade, pois foi mencionado a estes que seria adequado ao caso 
que eles tambm fizessem terapia. 
Tais condies impuseram como passo conseqente a elaborao da tcnica denominada 
GRUPO ESTRUTURADO DE VIVNCIA PARA PAIS, a ser aplicada a pais de crianas 
encaminhadas para terapia, visando  sensibilizao dos mesmos, como introduo a seu 
prprio processo teraputico. 
102 



1. OBJETIVOS DA TCNICA 
a) informar os pais sobre a forma e contedo utilizados para a realizao da psicoterapia 
infantil; 
b) uma vez apreendidos seu contedo e forma, ou seja, a partir dos subsdios que ento 
lhes foram fornecidos, tornar vivel um questionamento do tratamento indicado: 
c) possibilitar a compreenso da necessidade que seus filhos tm, atualmente, de um 
auxlio teraputico; 
d) tornar explcitas as expectativas dos clientes e as reais possibilidades do psiclogo; 
e) no fundamentar-se em recursos verbais, uma vez consideradas as caractersticas da 
populao atendida em instituio; 
f) utilizar um curto espao de tempo para mobilizao, trabalhando dentro dos referenciais 
das terapias breves, tendo em vista seu carter introdutrio a uma terapia propriamente 
dita e outros dados referentes as caractersticas do atendimento institucional; 
g) facilitar aos pais, a percepo de sua disponibilidade interna atual, permitindo assim uma 
tomada de posio efetiva diante da terapia e da participao ou no, na mesma. 
A tcnica apresentada  resultante da somatria dos f atores que mobilizaram sua busca, j 
mencionados: uma experincia anterior no atendimento a crianas e pais e um 
conhecimento das possibilidades dos recursos de tcnicas psicodramticas. 
2. DESCRIO DA TCNICA 
2.1. Formao dos grupos 
Os clientes so atendidos em grupos de pais, cuja formao  paralela aos grupos de 
crianas, isto , os pais que freqentam um mesmo grupo tm seus filhos trabalhando 
juntos, em psicoterapia infantil.  evidente que se deve 
103 




levar em conta primordialmente os benefcios advindos da incluso do cliente em 
determinado grupo, tendo em vista sua problemtica. Alm disso, os pais devem ter 
participado do processo psicodiagnstico de seus filhos, que concluiu pela convenincia de 
passarem por um processo teraputico grupal, por tempo limitado. 
O nmero de clientes em cada grupo poder variar em funo do ideal considerado pelo 
psiclogo que realizar o trabalho, no sentido de atingir bons resultados. A ttulo de 
ilustrao, os Grupos Estruturados de Vivncia, j realizados, tiveram o mnimo de cinco e o 
mximo de oito clientes. 
Antes de se iniciar a terapia propriamente dita, procede-se  aplicao da tcnica aqui 
proposta. Suas caractersticas, a seguir descritas, bem como as do processo teraputico 
que dai decorre, determinam a necessidade da formao de grupos fechados. 
2.2. Equipe tcnica 
A equipe que atende os pais no Grupo Estruturado de Vivncia  composta por um 
psiclogo coordenador, que assume o papel de diretor do grupo e um psiclogo 
assistente, que tem a funo de ego auxiliar. 
No caso do terapeuta (que prosseguir com a terapia dos pais, aps a aplicao desta 
tcnica) no ser o diretor do grupo d vivncia, dever tambm participar da equipe tcnica, 
assumindo o papel de ego auxiliar. 
O diretor coordena a sesso, acompanhando o desenrolar das cenas dramticas, bem 
como os outros aspectos verbais e no-verbais que ocorrem durante cada sesso. O ego 
auxiliar desempenha as funes de ator, representando os papis que exigem sua 
participao, dentro da cena dramtica; como investigador, ajudando o diretor, ou mesmo 
expressando pensamentos e sentimentos (Martin, 1978). 
2.3. Freqncia e durao do atendimento 
O Grupo Estruturado de Vivncia  realizado em trs sesses, com durao de noventa 
minutos cada uma, havendo intervalo de uma semana entre uma e outra. 
104 



2.4. Espao fsico e participao dos clientes nas dramatizaes 
Os participantes do Grupo Estruturado de Vivncia (clientes e psiclogos) dispem-se 
aleatoriamente, e sentam- 
-se encostados s paredes da sala. As salas de atendimento devem ser amplas o 
suficiente, para acomodar a todos. 
As sesses, no Psicodrama, se desenvolvem a partir da integrao de trs contextos: o 
contexto social, de onde surge o tema a partir das situaes vividas fora do grupo e trazidas 
para este; o contexto grupal, que  onde o drama toma forma e se evidencia, na 
equivalncia dos papis que aqui aparecem, repetindo o que acontece na vida social 
(porm, no sendo originrio deste contexto, e sim do social, no se explicita aqui); e o 
contexto dramtico, que unifica- r os outros dois contextos na representao que se inicia 
pela situao vivida no grupo e vai para a situao do contexto social, evidenciando suas 
origens no real e no imaginrio (Naffah Neto, 1979). 
Considerado isto, nas sesses em que ocorrem dramatizaes, convenciona-se com os 
clientes que o centro da sala fica reservado para este trabalho, delimitando-se, portanto, o 
espao dramtico. 
Os clientes podem participar das dramatizaes como egos auxiliares ou como 
protagonistas. A ao com protagonistas, que podem ser um ou mais elementos do grupo, 
ocorre quando o grupo, disposto a dar sua contribuio, recebe os integrantes do grupo 
para que procedam  vivncia da dramatizao (Navarro e outros, 1978). 
Ficam no centro da sala os protagonistas, egos auxiliares e o diretor, permanecendo os 
outros integrantes do grupo em seus lugares. 
2.5. Instrues para a aplicao da tcnica; objetivos de cada sesso; consideraes 
tericas concernentes 
As trs sesses que compem o Grupo Estruturado de Vivncia so compostas, cada uma 
delas, por passos a serem seguidos, visando a atingir objetivos definidos, atravs de 
colocaes, propostas e questes. 
105 



A sesso, dentro de uma abordagem psicodramtica, se desenvolve em trs fases: 
aquecimento, dramatizao e compartilhar e/ou comentrios (Moreno, 1978). 
O aquecimento, a princpio  inespecfico, ocorrendo no incio da sesso, e  onde o grupo 
se prepara, atravs de um dilogo, onde os psiclogos podero no intervir, mas que 
tambm pode incluir a atuao destes, sob a forma de perguntas e solicitaes. De acordo 
com Naffah Neto (1979),  onde o tema do encontro vai se explicitar. 
A seguir, o aquecimento se torna especfico para um tema j definido, e se utilizam 
iniciadores que preparam o grupo (se a dramatizao for grupal), ou o indivduo para o 
desempenho espontneo de um papel. Para cada papel que o indivduo representa em 
uma cena dramtica, se faz um aquecimento. 
 na dramatizao que se vo reconstituir na realidade 
vivida as fantasias, os sonhos ou imagens, colocando em 
ao os papis a implicados. 
Atravs do processo teraputico, com a liberao da espontaneidade, tipo de energia que 
funciona como catalisador (Moreno, 1974), que d vazo  criatividade na execuo dos 
papis, ocorre a tentativa de promover o surgimento de relaes tlicas, ou ento, permitir o 
Encontro. 
 conveniente destacar que no Psicodrama se pera na dimenso do como se fosse, 
implicando numa diferenciao e ao mesmo tempo superposio do real (contexto social e 
contexto grupal) e do imaginrio (contexto dramtico). Isto fica marcado para o cliente, 
mesmo quando este est dramatizando, atravs do que vive na prpria dramatizao, em 
contraposio s intervenes e presena dos psiclogos, outros membros do grupo, e 
objetos da sala, que esto caracterizando o real. De acordo com Naffah Neto 
1978). 
106 


(1979), pela possibilidade de contraste entre o real e o imaginrio, se d a revelao. 
Navarro e colaboradores (1978), analisando a dimenso do como se fosse, afirmam: 
pensamos que nossa tarefa  tornar, quando h crescimento e enriquecimento de 
determinados papis, o protagonista apto, virtual, potencial para o Encontro, mas que este 
dar-se-, fora da sala teraputica, com as figuras reais da sua prpria vida (p. 37). 
Na terceira fase da sesso psicodramtica, o compartilhar e/ou comentrios,  onde se d 
uma elaborao do que ocorreu na dramatizao, podendo ampliar o nvel consciente, de 
determinantes inconscientes.  quando os membros do grupo, tanto os que participaram 
das cenas dramticas quanto os que assistiram a elas, fazem trocas sobre os 
sentimentos que emergiram atravs da ao. 
No Grupo Estruturado de Vivncia, as questes e colocaes propostas devem obedecer  
seqncia descrita a seguir, de forma que cada uma delas sirva de aquecimento para a 
seguinte. 
Todos os passos das sesses, seus objetivos e as instrues, necessrias para a 
dramatizao, so previamente discutidos entre os membros da equipe, porm, apesar da 
estruturao prvia da tcnica, as possveis ocorrncias na sesso so imprevisveis. Isto 
leva  necessidade de flexibilidade, por parte da equipe, no sentido de saber utilizar-se de 
outros recursos, para atingir os objetivos propostos e, primordialmente, respeitar a 
especificidade dos grupos. 
Considerando estes aspectos para a aplicao, as instrues e objetivos de cada uma 
delas so: 
PRIMEIRA SESSO 
a) O diretor apresenta-se e prope aos demais membros da equipe que o faam, 
explicando aos pais as funes que exercem 
na Instituio. 
b) O diretor convida os pais a se apresentarem. 
Objetivo: definio dos papis dos componentes do grupo. 
O diretor efetua o contrato com os clientes, onde so salientados: 
a) dia, horrio e perodo de atendimento; 
107 



b) tipo de atendimento que se pretende prestar aos pais e s crianas; 
c) importncia da assiduidade s sesses e da participao dos pais, pelo prprio 
atendimento em si e pelo fato de se tratar de uma tcnica de grupo, por tempo limitado; 
d) objetivos do Grupo Estruturado de Vivncia. 
Objetivo: Obter um compromisso formal de trabalho. 
1. Agora, eu 5 gostaria que vocs falassem um pouco sobre as crianas e sobre vocs. 
Objetivo: a) Observar como esto percebendo a problemtica da criana. 
b) Coletar dados sobre como se incluem (se a incluso ocorrer), na problemtica da 
criana. 
2. Eu gostaria de saber o que vocs esperam do atendimento aqui, na clnica. 
Objetivo: Verificar que expectativas os pais apresentam em relao ao atendimento e, 
indiretamente, a imagem que tm da 
figura do terapeuta. 
OBJETIVOS GERAIS 
a) Promover um aquecimento para as sesses que se seguem, com o grupo iniciando uma 
troca de experincias. 
b) Facilitar  equipe uma apreenso do quadro e o trabalho a ser realizado com os pais, 
alm dos dados obtidos em diagnstico prvio. 
c) No partir de uma viso apriorstica, no que diz respeito  sensibilizao do grupo. 
SEGUNDA SESSO 
Antes da colocao das propostas,  enfatizado o sigilo que a equipe manter, tanto no que 
diz respeito s sesses realizadas com crianas, quanto no que se refere quelas 
destinadas aos pais, no havendo troca de informaes entre umas e outras. 
3. O que vocs acham que fazemos com o filho de vocs nas sesses de psicoterapia? 
Objetivo: Detectar as fantasias vinculadas ao trabalho feito com as crianas. 
5. A palavra eu, usada nas colocaes, propostas e questes feitas, designa a figura do 
diretor. 
108 



Colocar no centro da sala uma caixa de brinquedos contendo material semelhante ao da 
caixa utilizada nas sesses de terapia infantil (material grfico, brinquedos de montagem, 
animais de plstico, famlia de bonecos etc.). 
4. Gostaramos de lhes propor que representssemos, aqui, uma sesso semelhante  
sesso das crianas: com o ego auxiliar6 no papel de terapeuta, e com vocs, fazendo 
cada um o papel de seu filho. Agindo como vocs acham que os filhos de vocs agiriam. 
Sejam os seus filhos. 
Uma vez iniciada a dramatizao, o diretor se afasta da cena, para que esta se desenvolva 
espontaneamente. Aps algum tempo ele se utiliza de um tipo de interveno, onde dialoga 
com os protagonistas. Estes, atravs do papel representado, dialogando com o diretor, 
podero trazer dados que at ento no haviam surgido. 
S o protagonista com o qual o diretor atua considera sua presena. Ocorre um 
congelamento de cena (Bustos, 1982). 
a) Permitir a vivncia de uma sesso de psicoterapia infantil e conseqente compreenso 
do processo. 
b) Levar a uma compreenso interna, de como esto vendo seus filhos, atravs da 
representao do papel do outro. 
Aps a dramatizao, retira-se a caixa do centro da sala, assinalando-se, assim, a 
mudana de contexto. Os participantes voltam aos seus lugares. Inicia-se aqui a fase de 
compartilhar e/ou comentrios, da sesso. 
5. O que vocs acham, agora, que fazemos com os filhos de vocs na psicoterapia? 
a) Pelo confronto entre fantasia e vivncia dramtica, possibilitar a compreenso de como 
se processa a psicoterapia infantil.
b) Aps a compreenso, tornar vivel um questionamento sobre o trabalho realizado pelo 
psiclogo.
6. Como foi ser o filho de vocs na hora da dramatizao? Como vocs se sentiram? 
6. Ao fazer a proposta ao grupo, o diretor fala o nome do ego auxiliar. 
7. Quando o pai e a me de uma criana estiverem presentes, teremos um mesmo papel, 
desempenhado por dois protagonistas, numa mica dramatizao.  interessante observar e 
compartilhar as diferenas e coincidncias, no tocante a percepo que cada membro do 
casal tem do filho. 
109


 
Objetivo: a) Atravs da representao do papel do outro, possibi litar a captao de 
contedos prprios, que levam a 
determinadas formas de relacionamento. 
b) A partir disto, possibilitar a avaliao da convenincia ou no de um atendimento para si 
prprios, colocando- 
-se ento mais motivados diante deste, caso optem, por participar do mesmo. 
 importante salientar que a dramatizao nesta sesso se d em duas dimenses: a real, 
quando se utiliza a caixa de brinquedos com a inteno de transmitir uma informao, e a 
imaginria, quando os pais representam o papel dos filhos. 
TERCEIRA SESSO 
1. O ego auxiliar hoje vai nos ajudar. Cada um de vocs vai trazer uma pessoa do grupo 
de pais ou o ego auxiliar, para ser o terapeuta, e outra pessoa, para ser o filho. Depois, 
vo coloc-los numa posio, fazendo uma imagem, como se fosse uma fotografia ou um 
quadro; colocando estas pessoas, de forma que representem a relao do filho de vocs 
com o terapeuta; como vocs imaginam que ela seja. Um de cada vez ir construir a 
imagem. Todos os clientes sero,  sua vez, protagonistas. 
Nessa dramatizao, aps a construo da imagem, o diretor prope ao protagonista a 
assuno dos papis representados: de terapeuta e do filho. Convm lembrar que antes da 
assuno de cada papel (terapeuta e filho), dever ocorrer um aquecimento especfico para 
a representao do novo papel. Aqui, o diretor ir atuar utilizando o mesmo tipo de 
interveno da sesso anterior. 
Objetivo: Trazer  tona as fantasias que os pais tm, em relao ao vnculo teraputico. 
2. Como  que vocs se sentiram sendo o filho de vocs? 
3. Como se sentiram no papel de terapeuta? 
Objetivo: a) No primeiro passo, novos dados sobre o cliente podero surgir, em 
conseqncia da representao do papel do outro. 
b) De forma geral, os dois passos, permitem uma explicitao e anlise das expectativas 
em relao ao tratamento e uma avaliao das reais possibilidades do terapeuta. 
110 



Aps cada. passo, de cada uma das sesses, a discusso do grupo ter prosseguimento, 
at que tanto os pais quanto a equipe, nada mais tenham a acrescentar. S ento  dada 
continuidade ao trabalho. 
O vocabulrio usado pela equipe, ao se dirigir aos clientes, deve ser o mais simples 
possvel, de forma a tornar vivel o trabalho com os pais. Uma vez no compreendida 
determinada instruo, cabe  equipe tcnica esclarec-la, utilizando-se de recursos mais 
simples, isto , atuando como facilitadora. 
A atitude dos psiclogos na aplicao desta tcnica  essencialmente ativa e participante. 
Isto se justifica pelo fato da tcnica estar inserida no referencial das terapias breves. 
3. RELATO DE UM GRUPO ESTRUTURADO DE VIVNCIA PARA PAIS 
A ttulo de ilustrao, sero relatados alguns momentos 
ocorridos em um Grupo Estruturado de Vivncia, que permitem analisar os resultados da 
aplicao da tcnica. 
O grupo aqui enfocado, 8 era composto por oito membros: 
 Joo (52 anos, eletricista) e Lurdes (47 anos, prendas domsticas), pais de Gislene (7 
anos). 
 Osvaldo (43 anos, vendedor), pai de Cana (8 anos). Teima, esposa de Osvaldo, recebeu 
indicao para terapia individual. 
 Snia (36 anos, prendas domsticas), me de Saulo (7 anos). 
 Mariene (33 anos, prendas domsticas), me de Silvano (8 anos). 
 Mercedes (41 anos, prendas domsticas), me de Edson (8 anos). 
 Dorival (38 anos, aposentado) e Antnia (29 anos, prendas domsticas), pais de Gilberto 
(8 anos). 
8. Por questes ticas os nomes dos componentes do grupo so fictcios. 
111 



Slvio, Oto e Joaquim, casados, respectivamente com Snia, Marlene e Mercedes, no 
atenderam  convocao para 
o atendimento. 
Na primeira sesso, no havia a preocupao de mobilizar contedos internos. Essa foi 
mais dirigida para uma explicitao da forma, assumindo tambm um carter exploratrio. 
Assim, os papis foram definidos apresentando-se o contrato (e seus limites), a nvel da 
instituio.  Diante disso, os clientes colocaram os prprios limites, isto , de que forma 
poderiam assumir o contrato que lhes estava sendo proposto. 
Dorival,  diz que ele participar de algumas sesses e Antnia (sua esposa) de outras, pois 
tm outros filhos pequenos e um deles deve ficar em casa para cuidar das crianas, mas 
que os dois gostariam de participar do grupo de pais, mesmo que no fosse em todas as 
sesses. 
Snia afirma que o marido trabalha no horrio do grupo, mas que nos dias em que puder 
faltar ao trabalho vir 
s sesses. 
Marlene e Mercedes colocam que  intil continuar chamando os maridos para as sesses, 
pois eles se negam terminantemente a participar. Ambas pareceram irritadas com o fato, 
mas no conseguiam ver outra alternativa. 
Foi includa aqui uma explicao a respeito do trabalho a ser desenvolvido por todo o grupo 
(clientes e equipe 
tcnica) 
No segundo passo, de forma geral, os pais reapresentaram as queixas, ou seja, os 
sintomas de problemtica, pelos quais iniciaram o processo psicodiagnstico, como se no 
tivessem passado por este. 
9. Dos clientes acima descritos, estavam presentes Joo, Lurdes, Osvaldo, Snia, Marlene, 
Mercedes e Dorival. 
10. Atendimento realizado na Clnica Psicolgica So Marcos, Instituto de Cincias So 
Marcos. 
11. Sero includos aqui, exemplos referentes  anlise feita. Cabe salientar que, foi 
transcrita a linguagem falada, para expressar claramente a situao colocada pelo cliente. 
Assim sendo, aparecem no texto, incorrees gramaticais. 
112 



Marlene relata que Silvano precisa aprender a obedecer; que  dependente; irrequieto 
(principalmente com as irms); que s vezes faz xixi na cama  noite; que tem medo de 
errar, ficando preocupado com isso; que  desatento e troca letras. 
Dorivai diz que Gilberto  danado e genioso, e que tambm no vai muito bem na escola. 
Mercedes diz que Edson no tem problemas na escola, 
mas que ele  tmido, inseguro e que tem medo de ficar sozinho. 
Outras situaes verificadas foram: 
a) negao das dificuldades da criana; 
Lurdes afirma que Gislene no tem problemas na escola e que acha que est bem. 
A diretora pergunta ento o porqu dos pais trazerem 
Gislene  clnica, se acreditam que ela est bem. 
Lurdes reformula, dizendo que ela no est to bem assim. 
Que acha que ela  insegura, dependente, um pouco carente. 
A diretora pergunta a Joo (o pai) o que ele pensa a 
respeito. Ele diz que concorda com Lurdes. 
b) total desconhecimento da dificuldade do filho; 
Osvaldo diz que no sabe por que a filha est na clnica, por que foi encaminhada: A 
psicloga da outra clnica disse que no podia dar os resultados dos testes para a Teima. 
A, eu fui l e disse que como pai queria saber por que a minha filha precisava do 
tratamento e ela disse que era segredo, e no podia contar pra ns; que mandaria o 
resultado aqui pra clnica. Eu no entendi isso, viu! Ela tambm no deu o resultado da 
minha outra filha. 
c) incluso de dados sobre a prpria pessoa. 
Snia diz que Saulo no tem problemas na escola este ano. Que teve problemas o ano 
passado, porque no gostava da professora e ela invoca com ele. Afirma: o problema dele, 
 que  muito ativo, irrequieto, genioso, fica nervoso com tu- 
113 
do. Eu acho que isso ele puxou a mim (ri).  Conta ao grupo que Saulo faz xixi na cama 
algumas vezes, melhorando um pouco, quando comeou a vir na clnica para fazer os 
testes. 
De forma geral, os pais colocaram-se como observadores das dificuldades dos filhos (fatos 
concretos e no-contedos internos) e transmissores de informaes sobre as crianas. Em 
nenhum dos casos houve incluso de dados referentes  dinmica familiar. Demonstraram 
no ter informaes suficientes sobre o atendimento a ser dado tanto aos filhos quanto a 
eles. 
Envolveram no processo teraputico apenas os filhos e o terapeuta, colocando-se numa 
posio passiva diante deste, pois esperavam ser julgados pelo que faziam e receber 
instrues sobre como deveriam agir, reafirmando o desconhecimento do processo 
teraputico. 
Dessa sesso, o que se apreende, de forma geral,  que o grau de compromisso e 
disponibilidade para o processo teraputico dos filhos e para com o deles  bastante 
limitado. 
Na segunda sesso,  ficou explcito o desconhecimento no tocante ao trabalho realizado na 
terapia. Este  descrito por eles, basicamente, como um trabalho, ainda, de investigao e 
no teraputico. 
Osvaldo: Eu acho que vocs ficam analisando a criana para 
saber o que ela tem. 
Diretora: Analisando como? 
Osvaldo: Pela conversa dela. 
Joo: Eu acho que  pelo modo de criana brincar, pelas brincadeiras delas, vocs vo 
observando e descobrindo o que ela tem. 
Lurdes: Eu acho que brincando e conversando vocs descobem coisas. 
12. A me coloca algumas informaes sobre si prpria, mesmo que por identificao. 
13. Compareceram a esta reunio Dorival, Osvaldo, Joo, Lurdes, Snia e Marlene. 
114 



Snia: Eu tambm acho isso. 
Marlene: Acho que  isso. 
Dorival fantasia que a prpria criana far uma descrio de sua problemtica: 
Dorival: Eu acho que o Gilberto vai dizer que  timido. 
Diretora: Como assim? 
Dorival: Eu acho que ele vai te explicar que  timido. 
Aps a dramatizao de uma sesso de psicoterapia infantil, revelaram, atravs de seu 
discurso, ter captado, com mais clareza, a forma e contedo abordados na situao 
teraputica. 
Osvaldo: Eles vo brincando e vocs vo conversando com eles sobre o que eles esto 
sentindo. Vocs percebem pela forma de brincadeira que eles tm pelos brinquedos. (Os 
outros pais concordam.) 
Diretora:  isso, a criana usa o brinquedo para se comunicar, para mostrar o que sente. 
Osvaldo: , e sabendo, e conversando o que ela sente, vocs vo ajudando ela melhorar. 
Diretora: Me parece que agora ficou mais claro a forma como ns trabalhamos com as 
crianas. (Os pais concordam.) 
Os pais revelaram dificuldade em tomar o papel de 
seus filhos. Todos saram do papel representado. 
Gislene14 (por Lurdes, com voz de criana): Tia, posso pegar os brinquedos? 
Terapeuta: Eu sinto que para fazer as coisas, Gislene, voc precisa da autorizao de um 
adulto. Como voc se sente tendo sempre que pedir para fazer o que voc quer? 
Lurdes: A Gislene se sentiria bem. 
(Lurdes ri desconcertada, ficando um pouco em silncio.) 
14. Os objetos e personagens representados viro sempre acompanhados por um asterisco 
(*), para diferenci-los de objetos e pessoas reais. 
115 
A sada do papel exigiu novo aquecimento para sua retomada. 
Gislene (por Lurdes): Eu me sinto mal. Algumas coisas, 
eu acho que poderia fazer sem pedir. 
Os pais tomaram conscincia da dificuldade de tomar 
o papel do filho. 
Osvaldo: Eu no conseguia ser a Cana. 
Dorival: Pra mim foi difcil, porque eu tambm sou um pouco fechado. Foi difcil ser ele. (O 
pai fala sobre si.) 
Osvaldo: Isso no  problema pra mim. Se fosse eu estava frito. Eu ganho a vida falando. 
Sou vendedor. 
Marlene: Eu tambm no consegui ser o Silvano. 
Joo: Foi difcil fazer o papel dela. 
Lurdes: Eu acho que tambm no fiz. 
Snia: Eu acho que eu fui o Saulo. 
Diretora: Me parece que voc se identifica com o Saulo, mas por que ser que voc no 
conseguiu permanecer no papel dele? 
Snia: Foi difcil fazer... 
Com a dramatizao, apesar das dificuldades encontradas, os pais voltaram-se, tambm, 
para os prprios contedos internos, estabelecendo uma ponte entre estes e a 
problemtica da criana, reconhecendo o vnculo existente entre a dificuldade de 
desempenho do papel do filho e suas histrias de vida. 
Osvaldo: Posso falar? (No espera permisso do grupo e continua.) Eu acho que no 
consegui ser criana, porque no tive infncia. No brincava e tambm me colocar no papel 
de Cana foi difcil porque eu quase no vejo ela. Quando eu chego  quase hora de dormir 
e ela est brincando com lousa, e giz, ou vendo televiso. Aqui ela * no brincou com 
outras crianas * mas ela no tem dificuldade de se relacionar. Ela me conta tudo que eu 
quero saber e eu pergunto na ida pra escola. 
116 



Em outro momento da sesso: 
Diretora: (para Marlene): Por que voc acha que foi difcil pra voc ser o Silvano? * 
Marlene: Bom, eu prendia muita o Silvano em casa, e por causa disso ele estava ficando 
retraido. Agora ele brinca muito na rua. Quando ele est em casa, est sempre brincando 
com as irms. Eles gostam daquele jogo de domin e eu nem sei jogar. 
Diretora: Ser que voc no poderia aprender com eles? 
Marlene: . Acho que na verdade eu no tenho pacincia pra brincar. 
Diretora: Ai o relacionamento com o Silvano no  to bom, tanto que fica difcil ser ele, * 
aqui. 
Marlene: . Eu acho que no presto muita ateno neles. 
Lurdes: Bem, eu no brinco tanto com a Gislene por falta de tempo. Eu brinco, mas no 
toda hora. Toda hora ela quer que eu fique brincando. Eu tenho a Gislene e o outro filho 
solteiro que j  moo e uma filha casada. Eu no tenho tempo. Outro dia, eu tive que 
largar tudo na minha casa, pra ajudar minha filha casada. Eu me dou bem com a Gislene. 
Ela parece uma sarninha atrs de mim. 
Diretora: Sarna  uma coisa que a gente gosta de ter perto? Lurdes: (A principio demonstra 
surpresa e depois ri.) No! 
Diretora: Ento me parece que a caisa no est to bem assim. 
Lurdes: (No responde e parece refletir. Depois de um tempo fala.) Estou junto e no estou 
junto, n? 
Snia: Bem, eu com o Saulo, a gente no se entende. A gente no se bica porque ns 
temos o gnio idntica. Ele acha que as coisas tm que ser como ele quer; eu acho que 
tm que ser como eu quero. Ns dois somos iguais. 
Snia percebe que fica difcil tomar o papel do filho porque se identifica com ele. Alm disso 
constata a dificuldade que est encontrando na identificao, assumindo o seu papel, e no 
permitindo que ele desenvolva um Eu diferenciado. Porm, sente dificuldade para mudar. 
Diretora: Osvaldo, a Sfia, a Marlene e a Lurdes passam muito tempo com os filhos e 
sentiram dificuldades. O que voc acha disso? 
117 



Osvaldo: . eu acho que estava errado nisso. O que importa mesmo  a qualidade de 
tempo.  essa a concluso que eu cheguei. 
Diretora: Ento voc sente que a dificuldade de assumir o papel de Cana aqui se deve ao 
fato... 
Osvaldo: (Interrompendo a Psicloga). De eu no ficar junto com ela pra valer. De eu estar 
junto, mas no prestar ateno. 
Joo: Eu brinco com a menina, jogo muito com ela e quase sempre deixo ela ganhar, 
porque seno, ela logo fica brava. 
Osvaldo: (Interrompendo). Ah, isso eu no fao! Eu no deixo ganhar sempre, no. Acho 
que a criana tem que saber perder. 
Joo: (No d importncia e continua). Eu acho que eu brinco mais com ela do que a me 
(aponta Lurdes), embora ela sempre queira brincar na hora do meu descanso. 
Diretora: O que voc sente com o fato dela querer brincar quando voc est descansando? 
Joo: Bom, eu no gosto, mas ento eu tenho que aproveitar. Ento jogo para educar. Ns 
jogamos muito escpa, porque puxa pela matemtica; porque ela tem que fazer conta de 
cabea. Tambm jogo com um relgio que ela tem, porque assim ela treina ver as horas. 
Diretora: Me parece que voc realmente no cede totalmente o seu tempo de descanso, 
porque acharia uma perda de tempo simplesmente brincar. Precisa tirar algum proveito da 
brincadeira, para sentir que o tempo que passa com a Gislene no foi perdido. 
Joo: Bom, eu j passei h muito tempo da infncia, da idade de brincar. (Sua expresso  
de tristeza.) 
Dorival: , eu acho que  isso mesmo. Apesar que eu acho, que eu e o Gilberto, somos 
como dois amigos, ns brincamos juntos. (O pai faz uma pausa e com expresso de 
tristeza, Completa.) Eu ensino as lies... 
Joo e Dorival demonstram tristeza diante da constatao da dificuldade de relacionamento 
com os filhos. Parecem elaborar o fato de exigir das crianas que assumam o papel de 
adultos, uma vez que eles, pais, no conseguem fazer a inverso. 
118 



3.3. Na terceira sesso15 novos dados surgiram durante o aquecimento inespecifico e na 
representao do papel do filho, a respeito de seus prprios contedos internos e da forma 
de relao com a criana. 
Osvaldo: . eu cheguei em casa e comentei que tinha brincaclo com bonecas, certo? 
Imaginando que era o brinquedo dela e tal, n? A Cana falou: muito bem! E a outra minha 
filha mais velha, ela gozou: P, com essa idade, brincando de boneca! Eu falei: Por qu? 
Voc acha que eu fiquei menos homem brincando de boneca? Ela falou: No sei, voc 
chegou agora! (O grupo inteiro, ri muito com a histria dele.) Eu tinha acabado de chegar e 
ela disse que ainda no tinha dado pra ver se tinha mudado. 
Diretora: Me parece que o fato de voc ter brincado... 
Osvaldo: (Interrompendo a psicloga.) Fez com que eu me aproximasse de urna outra 
forma. , eu tinha pouco contato com elas e nesses quinze dias foi muito maior o meu 
relacionamento com elas. Deu pra brincar mais, observar mais, participar mais. 
Diretora: Como voc se sentiu? 
Osvaldo: Eu senti que posso ser criana e elas no podem ser adultos. Que  muito mais 
fcil eu chegar at elas do que trazer elas at mim, O que eu senti foi isso. (Osvaldo parece 
muito contente com o fato.) 
Diretora: Foi gostoso? 
Osvaldo: Foi. Foi gostoso. Eu brinquei o que no brinquei na infncia. 
Diretora: D pra brincar agora? 
Osvaldo: Eu acho que d. (Sorri.) 
Lurdes: , eu achei tambm como ele diz (aponta Osvaldo.) , muito mais fcil ns irmos 
at eles do que eles virem at ns. Agora eu acho o seguinte:  muito difcil ns sermos 
crianas, porque ns sendo adultos, ns queremos mandar, ns queremos ser mais. Ento 
ns no respeitamos o desejo das crianas. 
Diretora:  aquela estria, n? O adulto manda... 
15. Os clientes presentes a esta sesso foram: Antnia, Osvaldo, Joo, Lurdes, Snia, 
Marlene e Mercedes. 
119 



Lurdes: (Interrompendo a psicloga):  .  isso ai que estive pensando essa semana.  dif 
lcil ser criana. 
Diretora: Deixar o papel de adulta e achar que com isso perde o poder. 
Lurdes: , ns s queremos mandar. (Parece muito revoltad& com a constatao.) S 
queremos mandar. Ns  que temos o papel importante, ns  que podemos assistir a um 
programa de televiso, ns  que podemos sair, criana no. Criana no tem direito de 
nada, S tem direito de fazer o que a gente quer, de obedecer. 
Aps a dramatizao: 
Mercedes: Eu no consegui fazer o papel do Edson. 
Diretora: No? 
Mercedes: No, acho que eu no consegui ser criana, no. 
 muito difcil. 
Diretora: Por que voc acha que foi difcil? 
Mercedes: Porque ele brinca em casa e eu no observo ele brincando. 
Diretora: Como voc acha que ele se sente por voc no observar? 
Mercedes: Acho que ele se sente muito triste, sozinho... Quer dizer, ele j  s, filho nico e 
eu no dei muita ateno para ele (silncio). Eu achei que ele se sente muito triste, solitrio, 
sem amigos. 
Diretora: Voc sentiu naquele momento * (aponta o local da dramatizao) que ele fica 
muito triste? 
Mercedes: Foi. Ele * no conseguiu nem brincar, ele parou no momento e nem brincou. 
(Mercedes est demonstrando profunda tristeza, com o corpo curvo, cabea baixa.) 
Na concretizao da imagem da relao terapeuta-cliente, os terapeutas foram colocados 
em p e as crianas no cho, havendo grande distncia entre eles. Em apenas um caso, o 
terapeuta foi colocado de ccoras, virando de lado para a criana; portanto, ainda distante 
de seu cliente. 
Todos os clientes verbalizaram sua extrema dificuldade de representao do papel do 
terapeuta. 
120 



Pelo fato de no conseguirem tomar o papel, no enxergaram a posio em que estavam 
colocando o terapeuta. 
Assim sendo, neste grupo foi utilizado outro recurso de 
tcnica psicodramtica, o espelho, no sentido de facilitar 
a percepo deste lado. 
No espelho ocorre o afastamento do protagonista da dramatizao, para que ele veja de 
uma dimenso real o conjunto da cena dramtica, a qual ocorre no como se. Isto para que 
ele se reconhea e reconhea o outro na cena (Navarro e outros, 1978). 
Diretora: Agora eu vou mostrar, para ocs darem uma olhada, a imagem que quase vocs 
todos fizeram (chama o ego auxiliar e pede que se coloque no papel da criana * sentada, 
e assume o papel de terapeuta.) * Quase todos vocs colocaram a criana * e o terapeuta * 
nesta posio. O terapeuta * aqui; e a criana * assim. Agora, eu gostaria que vocs 
olhassem como est esta relao. 
Os pais demonstram surpresa. 
Lurdes: Distante. 
Osvaldo: Est longe. 
Snia: Est bem distante um do outro. 
Joo: Foi. 
(Os outros pais acenam afirmativamente.) 
Diretora: Olhem a altura de um e a altura do outro. 
Osvaldo: Muito diferente. 
Diretora: A Marlene colocou nesta posio (espelha a posio) em que Marlene colocou o 
terapeuta),* mesmo assim com uma distncia. O terapeuta * no olhava para a criana * de 
frente. Ainda havia uma distncia. 
Marlene: . 
Os pais tomam conscincia da imagem idealizada cio 
terapeuta, como uma pessoa superior. 
Lurdes: Eu acho que  porque a gente no estudou. 
Diretora: Vocs no estudaram Psicologia. Mas do que ns falamos aqui? Falamos de 
Psicologia? 
121 



Lurdes: No, falamos do que a gente sente, do que as crianas sentem. 
Diretora: Pois . Sentimentos. 
Lurdes: , sentimentos. 
Snia: (Parecendo revotiada com o que havia percebido em si.) Voc  to gente quanto 
ns, aqui; pessoas envergonha. das de assumir o seu papel. 
Nesta terceira sesso, atravs da concretizao da imagem e da dificuldade na tomada do 
papel do terapeuta, os pais consequiram ver-se na relao com este. Tomaram conscincia 
da imagem idealizada que tm do terapeuta onipotente, afirmando assim sua impotncia 
diante de uma figura considerada poderosa. 
Isto facilitou que a diretora explicitasse, a seguir, as reais possibilidades do psiclogo e o 
quanto esse tipo de vnculo distancia os dois plos, cliente e terapeuta, o que acaba por 
dificultar o andamento do processo teraputico. Alm disso, permitiu aos pais a viso da 
possibilidade de outra forma de relao, no vnculo terapeuta-cliente. 
4. DISCUSSO DOS DADOS OBTIDOS NO GRUPO ESTRUTURADO DE VIVNCIA 
Verificou-se a partir dos dados obtidos que, ao se dar incio ao grupo, este revelou uma 
postura culturalmente conservada, diante do trabalho psicoterpico a ser desenvolvido. 
Tal postura conservada diz respeito  passividade caracterstica desses pais, que 
preferem abrigar-se sob o que j existe, ou seja, sob as conseqncias das dificuldades 
dos filhos, nas quais eles, pais, no se incluem. Esta reformulao implicaria um 
questionamento de si prprios, que por ser algo desconhecido  temido. A conserva 
cultural  til em situaes perigosas, como, por exemplo, um processo de mudana de si, 
quando ento o indivduo no conhece de antemo os resultados, assegurando assim 
uma continuidade. Ele se prende a uma forma de ser cristalizada, fixa, ou seja, conservada 
culturalmente, que, se no  o que pode ter de melhor,  algo que j lhe  conhecido 
(Greemberg, 1977). 
122 



De mesma forma, a passividade  sua postura diante da figura do psiclogo, pois foi quem 
confirmou, atravs do saber (ao qual eles no tiveram acesso), as dificuldades de seus 
filhos. Assim  tambm transferida para o terapeuta a responsabilidade de livr-los dessas 
dificuldades. Desta forma, um modelo tradicionalmente existente, ou seja, um papel 
histrico ao qual se atribuem expectativas,  ligado ao papel do terapeuta. O papel 
histrico, enquanto um modelo que se segue atravs das geraes, circunscreve o papel 
social do terapeuta como o que cura, que livra o cliente de suas aflies (Naffah Neto, 
1979). 
Por outro lado, sendo o homem um ser fundamentalmente em interao, existe a 
necessidade de adaptao s normas de convivncia. Desde que o indivduo aceite as 
normas, ir adotar um papel, s vezes por opo e outras por imposio. De acordo com 
Moreno, o indivduo toma conscincia do que  a partir do desempenho de papis. Assim, o 
papel seria no o eu ou a pessoa, mas sim o eu tangvel, por ser experienciado na 
representao dos diversos papis que o indivduo desempenha durante toda a vida 
(Moreno, 1978). 
O status seria uma noo abstrata da posio que o indivduo tem na sociedade, enquanto 
o desempenho de papis seria a forma em que esta posio se encontra concretizada. O 
papel permite entrever o que  um indivduo dentro da cultura em que vive. Pelos papis e 
as relaes entre eles, podemos captar que posies, a serem ocupadas, existem dentro 
de uma sociedade, como ela se organiza (Martin, 1978). 
Na situao teraputica,  comum observar nos clientes uma postura submissa frente ao 
terapeuta, revelando a represso de determinados papis, emergindo ento o papel fixo 
(Moreno, 1974). Contudo, a forma de desempenhar um papel implica um papel 
complementar. Do encontro dos dois, surge o vinculo (me-filho, mdico-paciente etc.). 
Papel e contra-papel so co-existentes, co-atuantes, co-dependentes. . . (Fonseca 
Filho, p. 77,1980). Assim sendo, s existe o indivduo passivo, enquanto houver um outro 
atuante em relao a ele. Observa-se a tendncia por parte das classes dominantes (seja 
este domnio exercido por fator econmico, 
123 



cultural ou outro qualquer) de confirmar essa passividade no desempenho do contra-papel. 
Neste caso o terapeuta estaria exercendo um domnio pelo saber, mantendo o papel fixo 
do cliente. Assim sendo, existe a necessidade de reconquista da espontaneidade-
criatividade para que se d a renovao do papel. Dever ocorrer a modificao do 
esteretipo do psiclogo que ou  visto como algum que trata de loucos ou  um 
mgico capaz de grandes transformaes. 
Isto parece bastante para justificar a pouca disponibilidade e o baixo grau de compromisso 
verificados. Alm disso, a situao se agrava, uma vez considerada a dificuldade de 
expresso e compreenso a nvel verbal, existente na comunicao com a populao de 
baixa renda, atendida em instituio.
Ficou clara a eficincia da dramatizao como meio de transmisso de informaes e 
percepo de contedos internos, pois na medida em que as tcnicas psicodramticas 
permitem a reduo da. mediao verbal, facilitam a apreenso do processo e conseqente 
expresso, aps a vivncia dramtica (Alegre, 1980). 
Da dificuldade de assuno do papel do filho e do papel do terapeuta, os pais puderam 
captar, diante da incontestvel evidncia dramtica, o quanto sua percepo do outro 
estava distorcida, tendo suas expectativas sido colocadas no desempenho do papel do 
outro, levando em conta os papis que desempenham na vida. 
J neste momento do Grupo Estruturado de Vivncia, haviam abandonado o papel fixo, 
pois, ao se voltarem para contedos internos, elementos individuais comearam a emergir, 
implicando uma alterao do papel. 
O papel histrico atribudo ao terapeuta tambm sofreu modificaes, pois os pais 
conseguiram perceber a rigidez com que estavam desempenhando o papel de clientes. 
Passaram ento a atuar como agentes teraputicos do grupo, fazendo descobertas a 
respeito de si prprios e dos outros, sem utilizar nas sesses, exclusivamente, o saber do 
terapeuta, mas tambm a prpria vivncia. 
124 



Durante essas trs sesses muitos dados a respeito dos clientes, suas histrias de vida e 
dinmica familiar emergiram. Estes foram trabalhados na terapia que se seguiu, por opo 
dos clientes, que ento estavam suficientemente motivados. Apenas uma das clientes 
(Antnia) faltou a algumas sesses, optando a princpio por no participar do grupo 
teraputico, pois o que emergia da estava em oposio s suas convices religiosas. 
Estas, at o momento, a estavam satisfazendo. A partir das modificaes advindas do 
processo teraputico, que pde observar na relao com o marido e o filho, retornou ao 
grupo, revendo sua opo anterior. 
Durante o Grupo Estruturado de Vivncia, os clientes trouxeram outros vnculos existentes 
em seu contexto social, alm do vinculo pai-filho. Estes foram trabalhados durante o 
processo teraputico. Na vivncia em si, os vnculos abordados foram os de pai-filho e 
terapeuta-cliente, para os quais os pais estavam mais voltados, aps a realizao do 
diagnstico. O trabalho com estes vnculos serviu para mobilizar os clientes no sentido de 
trazer s sesses seu contedo interno. 
Conclundo, acredita-se com esse procedimento estar 
oferecendo ao cliente: 
a) a possibilidade de conhecer o processo teraputico a que ser submetido seu filho e a 
necessidade 
deste; 
b Y quais elementos da prpria experincia so trabalhados em uma terapia; 
c) a oportunidade de vivenciar a forma de atuao do psiclogo, o que deve contribuir para 
a modificao dos esteretipos e fantasias, adequando suas expectativas quanto ao tipo de 
resultado que se pode esperar. Com isto, desmistificar a idia de solues imediatas ou de 
transformaes radicais; 
d) a possibilidade de apreender aspectos do seu relacionamento com o filho e a 
importncia desse vnculo para a superao dos problemas trazidos; 
125 



e) a oportunidade de percepo de caractersticas pessoais que levam a determinadas 
formas de relao com o outro, circunscrevendo aspectos de sua vida atual e divisando a 
possibilidade de reformulaao. 
Todos estes itens so elementos para uma deciso pessoal, a favor ou contra a terapia 
indicada a princpio. Esta deciso, a partir disto, poder ser tomada de maneira mais 
consciente. Desta forma a terapia perde a conotao de indicao por deciso unilateral e 
toma o carter de opo efetiva, feita pelo cliente. 
REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS 
ACKERMAN, N. W.; BEATMAN, F. L.; JACKSON, D. D. e SHERMAN, 
S. N. Teoria y Practica de la Psicoterapia Familiar. Buenos Aires, Editorial Proteo, 1970. 
ALEGRE, N. G. Viso da Cena Nodal do Psicodrama a partir de algumas contribuies do 
pensamento lacaniano. Em: Bustos, D. M. e colab. O Psicodrama  Aplicaes da Tcnica 
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